sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Mariana



Houve um dia que sequer palavra foi pronunciada daquela boquinha rechonchuda conservada no rosto miúdo de Mariana. Ela queria ir até seu extremo, rasgar as vestes como se rasgasse junto as éticas impostas uma a uma durante sua curta e imaculada vida. Queria extravasar, ir além das cores robustas, romenas, escuras e nada religiosas pintadas nas paredes do seu apartamento. Era assim que ela se via, um cálice frágil por fora e escuridões infernais por dentro. Ela ia se rasgando, mutilando e não sabia, era lento e não doía, um novelo sendo aos poucos ornados como orbes na galáxia. Porque na boca dos outros, Mariana era um ternura, estudiosa, atenta, nunca faltara compromissos, nunca traiu seus namorados. Uma graça de menina. O diacho! Estava farta disso. Na faculdade de Artes não aprendera porcaria alguma, esperava bimbadas pelos corredores, galanteadores a buscando em casa com carros embromados e professores modestos, geniais, elaborando mil e uma teses artísticas sobre as pinturas góticas nas quais Mariana se inspirava. Eram nelas onde eram influídas as ganâncias, as impurezas mais secretas dela. Pinturas incríveis, ornamentadas, com cores impactantes e sofrimento óbvio. O sofrimento que ela nunca havia realmente sentido, mas ele estava ali engasgado na garganta, amargurando seu ser por dentro. Definhando delicadamente cada cateter que compunha as odes fúlgidas transpassadas no seu olhar amarelo esverdeado. Nada de espera de uma garotinha de um metro e sessenta, vinda de cidade pequena e ainda mais fazendo artes... Ninguém mais enxerga os artistas como outrora foram célebres, rebeldes revolucionários possuídos por bestas destruidoras da sociedade. Ah, saudade do que nunca vivi, pensava. Agora os artistas encubados e seguindo o fluxo dos catedráticos. E Mariana ia assim navegante nos seus dias, engolindo os sapos e drinks como se fossem feitos de álcool de cozinha e gasolina. Ia dando um quê medíocre a tudo que esbarrava.  E foi assim que calou-se. Aos poucos foi se isolando, perdendo amigos, perdendo apetite. Entrou no seu mundo e nele só queria saber de desenhar, esculturar, escrever, pintar, escutar, compor! Tinha curiosidade constante pela alma alheia, mas não adentrava uma sequer. Observada, absorvia do olhar e ia lá arquitetar colores mirabolantes no papel carbono. Seus verdadeiros colegas tornaram-se os velhos garçons conhecidos de bares e botecos perdidos. Depois da faculdade se mudou para um lugar sujo, mas aquela imundície tornava-se palco de poesia sórdida à noite, onde ela gritava fervorosamente ecoando com as estrelas iluminadas chamejantes e vibrando as cordas roucas de sua vocal. Usava roupas divertidas Almodovarianas, gozando na cara das pessoas com suas risadinhas sacanas.

 Estava sozinha, e nunca esteve tão bem acompanhada. 



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