sábado, 31 de março de 2012

Temo


serei eu eterna escrava de tudo que temo?
inseputável planície imaginária qual sinto
a dor do leito onde tenho que reviver
o terrível te esquecer cem mais vezes
mas cem mais vezes te esquecer
me dói menos que a realidade dos dias

Que martírio será esse
que teme o dormir,
porém teme muito mais
o acordar?

o eterno desgosto de viver ao
lúcida ou desacordada continuar a te amar
de olhos fechados até te tenho
desde o primeiro doce sexo
até o último amargo beijo
da forma mais cruel
te tenho só em sonho
e em sonho você sou eu
na cópia mais fiel
resgato o corpo teu no meu

mas temo mais em cada sonho
que acordo com a mais vívida lembrança
esperando que o despertar encontre
cem mais vezes o te superar

quinta-feira, 29 de março de 2012

Antes

Antes inveja eu sentisse
Dos caracóis de teus cabelos
Da tua boca de fases como a lua
Tua face sempre nua
Morena do mesmo sol que banha
Essas tuas pernas e costas carnudas!

Antes repúdio eu tivesse
Da tua flor descoberta
Que não sabe dizer não
Teu cheiro derramado
Impureza da menina libertina
Que zomba céus e mares
Dizendo “te anseio, mas não sou tua!”

Antes ao menos eu te amasse
Mas nem isso sou capaz
Pois teu coração inabitado não permite
Amar de nenhum rapaz,
Quanto mais permitiria
O amar de uma pobre poetisa?

Antes eu apenas pudesse contemplar teu corpo
Monumento minucioso concebido
Pelo deus da natureza e da perfeição
Mas não, por que o sujaste?

Antes eu pudesse entender
Tuas boemias carnais tão vazias
E entender a censura do teu amor
Tuas incertezas de menina
Seria tu mesma a sua própria companhia?

Antes de ódio eu me possuísse
Pela tua facilidade em transcrever
Tudo aquilo que não arriscas viver

Antes tu fosses decifrável
A menina litorânea de mil lados
Que de tão grande se tornou frágil!
O corpo fácil que protege o íntimo intocado

Antes a vontade de te ter me ganhasse
Mas nem isso consigo
Fico a observar teu recitar cruel que rasga
Com seu canto de sereia diurno
Atrai os homens fracos com sede de néctar noturno
Carnívora se satisfaz de carne!
E chora o pranto da solidão perpétua

Antes eu fosse como tu, morena!
Mas criaste uma singularidade tua
Que até mesmo o espelho sente medo
Toda vez que confrontas tua vida crua!

quarta-feira, 28 de março de 2012

O poeta morreu!


Enquanto a madrugada vai embora
O céu me traz as boas novas;
Está frio e o poeta morreu!

Por quantas praias aos domingos percorri
Buscando inutilmente resgatar sua última lembrança?
Que agora desfalece em um sorriso
Está frio, é passado, ele morreu!

Deixei memórias no parapeito e pela rua
É impossível fingir que em tudo não há uma explicação
Até as cortinas em poesia fazem sentido
À nós e também à elas que sentem os meus versos
Umas tristes, outras mais tristemente
Rindo de mim! A donzela que se fez vilã

Crédula, amei tanto sem saber
Que de amar há como se morrer
Porém meu coração agitado
Está feliz agora que o poeta jaz em mim!

Mas o pequeno metal retorcido sabe mais
Que muita gente e pesa mais
que muita coisa... 

Notória a bagagem que trago
Com tanto amor preservado
E lágrimas de paz
Pois o poeta morreu
E sobre esse sofrimento
Não canto mais!

segunda-feira, 26 de março de 2012

Primeira vez

De trás, meus olhos brincam debruçados em tua nuca
Invadidos e dilatados pelo aroma masculino que exala
Daqui teus ombros vigorosos me observam
Tentam-me, se dizem sustento; enganam-me?
Parto pelos teus braços e pêlos arqueados
Teus cotovelos beijando a boca de meu seio rijo
E eu realeza colhendo o néctar viscoso
Com minha língua âmbar desesperada.
Meu corpo Vênus, sou constelação
No ziguezaguear de nossas pernas trêmulas unidas
Pela carne queimada, escorrida
Eu, a mulher deflorada
E rimos devorados. Assim, sem aviso, viramos epopéia
Minhas mãos mimosas buscando a textura
Bem devagarzinho
De tuas costas maviosas que descansam o peito em repouso
O dia nos abandona, sol fraco batendo as cortinas
E a brisa roubando-me sorrisos
Teus lábios abertos após terem aberto meus lábios
Tuas mãos ligeiras agora cansadas, dormentes dormem junto a ti
Navegaste meu corpo submergido nos lençóis azul suor
Eu fui toda a cama, o quarto e a melodia obscena
Recitada em meus suaves uivos, gritei pelas papilas que provavam
Onde não tenho boca para dizer não

Minhas irís transtornada, vi a Ode mais bonita
De um orgasmo quase roubado
E assim pela primeira vez fomos amantes.

sábado, 24 de março de 2012

A censura de teu nome em meu verso


A censura de teu nome em meus versos
À censura de todos os nomes
Que será de mim que sorrio
Quando meu íntimo retorna
Ao vale da tristeza?

Morro assim cedo por associar
Qualquer um que passa
Ao romance que jamais viverei
Pois o vivo todo dia em pensamento.

A minha boca desabitada esqueceu
O gosto, a umidez e a veludez da tua
De todas – o ópio de amor pessoal que se difunde
Em sofrimento – Sofro demasiadamente pelo vazio
Meus deus! Quis tanto!

Quis ser louca, filtrar todas as mentes
Saboreá-las, ser minha e de mais alguém
Ser a maior, a translúcida, a verdade
A suprema poesia da pátria do meu sentimento!

Sou ilha! Ilha! Me afastei de todos, isolei-me
E culpo, rogo aos céus que todos os raios
Partam os corpos amantes ao meio pelo
Meu fracasso absoluto!
Sou escrava da dor fantasma que criei!

E agora a alma cancerígena apodrece minha
Ousadia em caminhar. Estou parada,
Mas resisto às chuvas!
As ruas alagadas e meus pés banhados de sujeira urbana.

Será que flores ainda florejam em mim?
Os cigarros me corrompem, me escondem...
Desapareço dentre a fumaça, poesia debilitada
Pela minha estupidez vontade de me trancar
Em meu mundo onde o abandono não existe
E ainda estais comigo.

Sinto o irreal. Arquejo e suo a minha santidade corpórea
Imploro...
Morram junto ao meu corpo isolado no mar
Extenso e inacabado de fruições e volúpias alheias
Teu sexo é meu sexo.

O seio materno me chama de volta
E tudo que já me foi sentido será
Esquecido se eu vertiginosa resgatar meu
Antigo mirante que tudo apreciava e achava belo
Se eu transpassar meu corpo
Que não mais suporta o peso de sofrer
Em silêncio, serei seca. Flor desbotada.

Temo! Temo o que criei
Temo meus erros que arrancaram
De mim a paz.
A planície alva de meu antigo corpo afável
O riso ressoante quando meu corpo montanhoso
Era escalado em peito aberto
À poesia infinita de todos os corajosos que me amaram.

Eu era assim
Até a fuga cega massacrar-me
E deixar-me perdida nas
Trevas dentro de mim.

Lágrimas

Entre as diversas alianças que fiz contigo, me perdi
Sofri também, sofri na ausência
Na onipotência
No teu roubo te mim
Respeito as nuvens que me segredam
Guardiãs da saudade do nosso gosto
Aguardam-me dias de metamorfose?
Planícies altas, escadas que somente sobem
No véu imerso em ondas de lágrimas
Permito-me sofrer perante minha impotência
Em não amar-te mais
Todos os vinhos e liquidos escorreram-nos
Nestes meses que guardo e que
Nada mais é se não memória, aos fins
De que reger à ti meus fracassos
É o mesmo que implorar-te de volta
Sem nunca teres me avisado de tua partida.

Infeliz

Tu, menino amável, ainda não me é nada
O que farei se estou presa em outro amor?

Sim, ainda o amo, amo ardentemente
Além de minha pele imoral,
Desgastada de tristeza pela promessa injusta.

Mas teus olhos, ah... A juventude tímida, despreparada
Flor nova que desabrocha em águas rasas e novas
Sem penumbras na face daqueles que viram a morte.

Tu, ao meu lado, se fazes tão presente
Valente, desconheces os perigos de meu coração  
Ele, longe, por quem sofro e me faço
Minguado, pedaços e cacos
De noites mal dormidas, tormentas e sequencias infindas
De pesadelos e lembranças, todas infelizmente vividas.

Eu me desintegro vagarosa na cama úmida
Agora desarmada de amor
Minhas noites não são as mesmas
Sem a voz dele, não...

Doçuras que o tempo cruel amargurou. Belo amor que se foi!
Amor que agora é medo,
Medo de me aproximar e te machucar...
Pois tudo que eu queria era tê-lo de volta –
(porém o tempo mostra; não o terei)

Vou aos poucos, vou esquiva, languida
Temendo estas tuas portas escancaradas
És menino quando fui feita mulher prematura!
Teus olhos e palavras que gaguejam a melodia
(Que talvez até me ganhe um dia)
Anuncia a possibilidade de dois sermos somente um.

Eu, mesmo ferida, navego sensível no mar
Da tua bondade ingênua que tanto se arrisca
Em meu corpo, território que engana
Pois se tem quente, mas é frio.

terça-feira, 20 de março de 2012

Espelhos meus


Minha nudez gelada, alva e exasperada
Declama a casta rebeldia em espera
Casca grossa que tudo confronta. Arisca
Ao fitarem meus olhos, que doces
Escondem o real espírito em guerra
Posto em ainda mais caos
Pois meus sentimentos estão também em tempestade
- Tormentas de violentas chuvas, ácidas lágrimas

É o veneno que prego, que dissemino
Entre meus vilarejos e viagens da exausta mente.
O veneno anseio de estar a sós
Mas de ser devorada numa bocada só
Ou decifra-me ou me deixes, parto incoerente
Apetite de superar a suprema poesia
Que tudo controversa e me vence em ousadia
Doce ópera que ordena minha desordem

Orquestro, orquestro os tons de minha voz
As nuances de meus toques macios, meus beijos
Molhados, exacerbados na espera eterna
Da alma incontrolada, fugaz, esperta
Desesperar-se ao fantasiar mãos as quais seja incapaz
Finalmente, dissimular
Louca, desvairada, confusa, onde realmente estou?

Tudo que sempre foi nada, nada sempre será.

domingo, 18 de março de 2012

Morreram todas em meus jardins


Amei, amei e amei
De tanto amar, amargurei

Em sonho observo os dias
iluminados pelo amor não mais vivido
Em rezas trago sagradas preces
de um passado irresgatável
De cama, me possuo transbordada em cólera.

Só.
no vazio de meus lençóis
sem nossos corpos quentes uivando
o canto daquela história tão bonita.

Calada, desabitados estão meus olhos
Após esgotar tudo de amável que me pertencia
Pois tu – encarregado de meus sorrisos
Foi embora, acinzentando meus dias

Ah, pobre poesia
Afetada pela minha ferida
Descobrindo que jamais serei a mesma menina
Porque sofro de amor
Sofro sozinha. 

sábado, 17 de março de 2012

Ser só morte


O céu está rubro
Hoje nada é belo
O céu sangra e geme
O mar deságua
Hoje eu desboto
Eu amargo
Eu morro devagarinho
Tudo dói,
As árvores doem
As ruas doem
E os pedestres cabisbaixos
Não acenam porque doem
Carecida minha poesia miserável
pois até os passarinhos invencíveis
estão tristes
sou engolida pelas luzes e faróis
insensível porque dói
palavras doem
e percebo a maldição
pois
     vivo
           de
              palavras
                       que
                          eternamente
                                        doerão.
Eu quero ser só morte.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Inesgotável

Queria não sofrer assim, ter o coração intacto, independente
A língua calada, mesmo ardente. Sem vertigens.
Pudera não sentir tanto
Não estar sempre neste triste pranto
de ser debilitada . Poder dar passagem à versos mais bonitos
porém deus deu-me esse inesgotável ímpeto
de querer viver intensamente.
Sou braços largos que abraçam o mundo com vontade
Sou o amar o céu!  O amar o mar.
Sou o olhar de infância pura
Mas o entregar de mulher madura.
Pudera viver sem espinhos sob a pele,
Sem o vento forte que impulsiona andares
Só que quando acordo, ah, quando acordo
Logo tenho que tirar da boca o gosto amargo
Que meus sonos deixam ao lembrarem-me
Que sustento o insustentável
E que não sei se mais suporto o insuportável
Pois vivo com a vontade de querer descobrir tudo
Sem saber por que minha carne cheia de tramas
Encurrala minha alma e manda
Que me dê aos beijos que são abismos
Pudera eu caminhar leve sem minha cólera febril
Que desiludida, me pede em ferida para ser inabitada
E não ser toda a minha natureza em constante adoração
De tudo que me consome sem contento
E que eu, a tola, não condeno.

terça-feira, 13 de março de 2012

Como vencer o oceano


Gama em síntese de meus jardins subcutâneos
sou a Dama Azul que implora socorro!
À noite em brinde de bocas alcoólicas
que nos recuperam o atraso de sorrisos desvanecidos
nestes lábios secos por Poesia que não rejeitam mais
nenhum choro. Tão Belas as singelas suavidades de
nossas dores, mulher dos olhos também roubados!
Na desculpa do acaso, tropeço em novos contos
com a esmera espera de desviar do equívoco
de contar novamente meus segredos ao Mar.

Aurora que anuncia Liberdade, ergue em voo a soberba
do mais Belo pássaro dos céus. Minha síntese é cadente
pois guardo a beleza de um sofrimento silencioso
após desistir da derrota, Ó pátria do sentimento!


Mas não resta-me senão respostas com igual silêncio aos teus.
E deste abandono, ergo-me! Ergo-me como posso,
pois ergo-me e permito-me recomeçar.

De volta à Terra Querida

Dela há pouco que negue o entregar
da tez em veludo e seiva a guardar

Mas ao ser invadida, sua anunciada Terra Querida
não recebe flores, nem avisos de qualquer partida.

Desamada pelos amores que a deixam marcas
em seus lençóis enegrecidos pelos olhos de rímel preto
sublimes de tanto esquecidos, cuspidos, hoje desertos
após a furtarem mocidade, Helena Despetalada.

Expulsa cedo de seu corpo, sobrara suas pernas
subterfúgio de tantas bocas e histórias de miséria
sem se quer a negação de permitir-se amar.

Feita Helena Terra Querida, desfeita
em cama, a carne ferida.

Meus poucos fatos

Não escreverei sonetos pois ignoro
o anseio de pertencer à algum lugar
Jazo deslocada, longe dos arquétipos
poéticos humanos, pois caibo apenas à
minha própria quimera infiel e
não amarei novamente homens que
sobrevivem de frutos femininos, donde
extraem todo amor, toda e dor e tudo
que lhes incumbir no mais íntimo sentimento.
Renunciei minha lucidez para poder beber,
além das garrafas vazias que já deixei,
mas beber da cerne de minha oculta
criação que em sigilos me arquiteto.

Debilitado está meu corpo, mas os dias são
breves e meu coração há de deixar de doer.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Helena

Helena, pecou a palavra, que nela, virou verbo.
Pecou a carne, que dela, não mais era.
Habitante, não dona, Helena, da flor fera que extraiu
de milhares de líquidos o vazio do suor, sentimento
e da própria morte ao querer ser a mais Bela.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Desconhecido


Me contaram
-   -  de formas apanhadas
e astrológicas
sobre a sorte do nosso amor.

Se me perguntarem de que tudo
O que mais viviverei, contemplarei
Pois sinto falta de nossa fala que está por vir
Quero teu colo intimamente, porém serenos
Vida curta, longa morada.

Elaboro-me agora, apenas em versos simples
Adapto-me aos cantos de todos os pássaros
Que em todos os ninhos se refugiam
Ao anunciar dessas manhãs tão belas

Amanhã, em ousadia, falarás
Serão teus olhos passagem
Para esse vasto vazio azul
Que tanto anuncias?
Serão mesmo os teus olhos
Ou isso será somente ensejo
Para que me perca
Em teus lábios?

Meus quentes lábios que descansam
Serão quantos
ô, meu futuro?

Oh, menino
Quero mesmo
é fazer-te homem.