segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Âmago


Queria recordar como isso aconteceu, o instante correto. Entretanto, minhas memórias são como abstrações ensurdecidas por um grito desesperado de minha mente. Não recordo com exatidão, sei que nos últimos meses tenho tido percepções precárias, indícios de uma loucura prematura que talvez esteja me abatendo. Sinto estar vivendo a realidade de forma rasa e distante, como se participasse paralelamente de um contínuo sonho lúcido, com raríssimos momentos de completa clareza. Detesto essa sensação, ainda que muitos possam vir a invejar minha condição, almejar essa minha visão subdividia entre os dois mundos. Detesto essa sensação cuja qual não possuo se quer controle, abro os olhos e meu corpo desorientado treme, uma adrenalina que me assusta percorre e vejo as pessoas cruzarem lentas, vivendo a vida a forma pacata enquanto minha cabeça lateja, de repente não estou mais aqui. Aperto minhas têmporas, alguém discorre um sermão absurdo sobre algo que não entendo, caso pudesse a vir me observar de fora, veria meus olhos exaustos declarando minha vida fatigada, a pessoa que conversa agora comigo não percebe meus olhos, não percebe sua cansativa desumanidade e continua a dialogar em uma linguagem diferente da minha. Meu martírio segue os dias em momentos em que estou em todos os lugares, mas não estou em nenhum. Meu corpo físico está só, ancorado na existência de que não pode fugir, embora minha alma vague sublime por muitos outros recintos, desvinculada de minhas responsabilidades cotidianas. Minha condição me enerva, quisera eu possuir controle, decidir onde estarei, quando estarei. Ser dona desse meu acaso, escolher quem irá transcender minhas barreiras e tocar meu íntimo, mas não é de meu domínio! Pois toda vez que falo, que ajo, que gesticulo, eu não sou eu. Eu sou ninguém, eu sou vaga, estúpida, ínfima e distante. Eu não estou aqui e aterrorizante chego a crer que alguém jamais chegará a me conhecer.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Puída

Eu que sempre muito soube, sempre bem me portei, sempre soube selecionar as palavras de meu vocabulário e tornava os gestos cálidos em gestos tenros. Eu que com o rosto puro enxergava a vida devagar e andava muito por hora com meus pés descalços propondo sentir o chão e a terra participarem de meus caminhos vagos. Eu que nunca tive pressa e sempre convicta do tempo que me rege, do passado que abandono, do presente que me transcende e do futuro que me elege. Eu que sempre enalteci em sonhos esparramados pelos lençóis, que aflorei meu corpo frêmito em milhares de odes, acordei estática e ridiculamente empalecida em uma alma vil. Eu, vil, fétida e minúscula. Compactada em um mísero canto de minha cama, ausente de palavras e substâncias. Eu, inconcreta, lamuriante e desgastada. Sem gosto, sem possuir ar de nada. Eu que tola acreditei ter sido construída por um íntimo singular, intacto e sereno. Acreditei possuir perpetuamente a mesma essência, o mesmo silente sorriso perante a exultação dos dias. Enganada pela minha própria crença, acordei imunda de uma verdade que não me pertencia, descrente do prazer e da euforia, manchada por um sofrimento ordinário.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Catedral


Em meados de um dia ensolarado, sem refúgios pela chuva ou pela neblina, que me protegem dos olhos ladinos na rua, onde cada molécula de meu corpo eu sentia derreter e arder pelos poros da pele, transpirando uma pressa de não sei de quê, pois andava pela rua sem rumo e direção certa. Correndo e não respeitando os semáforos, não tardou para meu fôlego exaurir. E o instante de silêncio entre o inspirar e o expirar de meus pulmões buscando violentamente o ar denso daquela atmosfera febril, foi instante da colisão de meus olhos nos teus passos curtos e sem pressa, ao contrário dos meus. Contrariamente também passos certos em uma direção. Invejei tua certeza e a suavidade que teus sapatos tocavam o chão. Agora dentro de mim aflorava uma quietude que alimentavam meus olhos atentos nos segundos que possuíam tua presença. Logo partirias daquela rua, partirias também meu coração que palpitava forte almejante de ti. Me perguntei quem serias, para onde irias, quis te seguir para onde fostes, desconhecendo meu rumo, mas possuinte de um. Serias meu destino final, mas não tive coragem de mover um músculo, meus olhos continuaram fitando teu rosto, teus olhos cobertos por um par de lentes escuras que te protegiam do sol e perpetuavam a dúvida de minha invisibilidade. Não sabia se me vias, mas sabia que te via e que partias para perto de um cenário onde eu poderia nunca mais o ver novamente. O sol me alardeava, na manhã seguinte minhas bochechas quentes ardiam, assim como meu ódio pessoal por não ter ido junto à ti. Revivi durante semanas este ódio, me rogando pragas e fazendo promessas para quando o visse novamente. Agora parto pelas ruas da cidade com a mesma pressa e sede daquela tarde ensolarada, procurando te cruzar pela aquela mesma rua e a andar conforme teus passos lentos.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

De muito

Sentir é fatal quando não se há palavras.
 "Estou perdida", penso.
Ocorre-me um insight qual eu poderia facilmente chamar de derrame <cômico>, as palavras possuem substituições e sinônimos, mas jamais trazem medidas justas de significado. E de todas as medidas possíveis em meu vocabulário, nenhuma cabe nesse meu sentir inexato, estou engasgada. Meu insight veio violento e me atormenta, me observo de fora e despercebida, me vejo num filme mal feito e clichê, programado para surtir sentimento algum em meus espectadores ausentes. Minhas mãos tremem, não as vejo como antes, parecem não mais serem minhas, suas agilidades e formas se diferem das mãos que conheço, como me apego à estas mãos que não são minhas e seus delicados traços, a forma sutil de percorrer o teclado. Clep, clep, clep, o único som de meu quarto, eu estou enloquecendo. Ah, deus, o que irei fazer se em mim não creio e não tenho mais ao que recorrer? Crio mil e uma teorias sobre minhas mãos que não minhas, juro pelo ar que preenche meus pulmões: estas mãos não são minhas. Estão junto aos meus braços, como normalmente deveriam nesta realidade, porém não são minhas. Seus trejeitos mais delicados e agilidades múltiplas revelam que não pertencem à mim. Onde estão minhas mãos, se não estas são?! E estas são as mãos que me levam às palavras que pronuncio, onde divagam as palavras de minhas mãos verdadeiras e teriam estas as respostas de meus socorros? Sentir é fatal quando não se há palavras, me perco em minha inexatidão, enlouqueço pela minha própria língua.