quarta-feira, 28 de março de 2018

Penso no quão egocêntrico tem sido minhas linhas. Quão covarde, prepotente e solitário é escrever. Quanto de mim eu descobri alimentando essas páginas. Quanto de mim registrei e perpetuo histórias do meu eu passado, estático e delicado. Recitado para estranhos, entre vírgulas e datas. 

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Eu não compreendo a carnificina da existência. Os dias parecem me comer vivo. Minhas palavras me engolem numa contradição antropofágica. Eu, que as dou vida, morro no momento que o faço. 

Reconheço minhas mortes como penitência e num último instante de lamentação engulo seco meus pedidos de suplício. Não quero morrer em vão. Quero que lembrem meu nome, quero que reconheçam meu sangue. De santo nada possuo, mas não posso morrer como poeta vazio. Quero que vivam pelas mesmas palavras que me matam, quero que sintam o cheiro do meu sangue derramado nas páginas que seguem minha autobiografia barata. 

Eu não aprendi nada vivendo, porque vivi só. É impossível evoluir vivendo em solidão. Eu me escondi de todas as pessoas que tentaram se aproximar e meu único meio de comunicação com o mundo externo é e tem sido minha escrita. É aqui que eu grito e velo meu desespero. Sim, estou desesperado. Extremamente desesperado. Anunciaram minha morte e não há nada que eu possa fazer para impedi-la. Irei partir assim, desesperado. Lamentando minha própria miséria, meu fracasso. Lamentando não ter deixado um último beijo aos que eu tenho amado. Lamentando por ter nascido com minha morte prematura anunciada, lamentando por ter desacreditado no destino e estar aqui, por fim, cumprindo o meu.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Recordo, com pouca nitidez, que costumava viver a vida com passos apressados. Até o início de minha juventude, senti pulsante em meu sangue a necessidade de presenciar todos os momentos, encher meus pulmões com todos os ares e enxergar tudo que meus olhos alcançassem. Era incapaz de dormir com leveza ou respirar fundo pela manhã, pois meu coração intranquilo não me permitia paz alguma, sedento pela constante presença de novidades em meu cotidiano.
Contudo – e até hoje procuro entender os verdadeiros motivos – minha personalidade sofreu uma fatídica mutação, quando completei minhas poucas e limitadas dezoito primaveras, tornei-me uma pessoa calma. Sou hoje impassível, ainda que deseje igualmente presenciar momentos, encher meus pulmões com diversos ares e enxergar tudo que meus olhos consigam enquanto me há a visão, mas ao deitar-me à noite, ao inspirar pela última vez lúcida antes de dormir, estou calma.
Consigo enxergar o que meus olhos antigos não viam com tanta precisão, eu consigo ver a poesia. Quase palpável, estática em todos os segundos em que existo. Faz parte de minha essência conviver com o drama de presenciá-la a todo instante, faz parte de minha sina compreender que eu possa pareça alheia ao apreciar vazios que aparentam estar silentes, mas que para mim gritam. Faz parte de meu exercício buscar alguém que me reconheça, que veja através do mesmo par de lentes que o meu. 
Não creio em doutrinas religiosas, minha fé não possui autoridades, não possui comunidade. Minha crença caminha livre pelo universo, está no ar, na atmosfera. Está no que não é ouvido e não é visto há anos luz de nós, está nos laços familiares, na aptidão humana de sentir calafrios ou dilatar as pupilar ao ver algo que goste, minha crença caminha junto à toda a bondade e educação já vivida, eu creio no altruísmo e no amor. Posso parecer ingênua e tola, mas agarrar-me à esta crença me faz existir num mundo bonito, alicerçado na esperança que luta contra aos massacres e guerras humanas. E enquanto eu existir, será isso que defenderei. Apesar de curta e imprevisível, a vida me permitirá deixar meu legado pessoal, minha herança. Enquanto eu puder viver e ensinar o amor, o farei. Será minha incessante busca, a única inquietação de meu peito.