segunda-feira, 26 de setembro de 2011




Como farelo de pão, ela aguardava ser reconhecida. 
Queria ser feliz. 
Mas não é felicidade servir de alimento aos passarinhos, que são livres, e podem voar sob o céu e sobre o mar? 

domingo, 25 de setembro de 2011

http://www.youtube.com/watch?v=p0cgHtM29rU

Luísa Amanda

Mente impura, língua casta. E lá estava ela, confortada na janela, apreciando a cor do dia. Fechava os olhos e inspirava o júbilo cheiro da aurora nova, a grama molhada, o vento de álcool da madrugada, o ar úmido levando mais um dia de tristeza embora. Eu contemplava aquelas pernas se roçando por debaixo do vestido azul. Com os olhos também fechados, conseguia fantasiar a textura, tocava-as com o pensamento. De costas para mim, estremecia. Receando – como sempre – algo terrível que se aproximava. Eu, o mentor de sua paz, pousava as mãos em seus ombros ossudos, afastava o cabelo escuro e tocava-lhe a nuca. O rubro arrepio que se espalhava pelo corpo era instantaneamente sucedido para mim e ela – com a percepção sempre muito aguçada -  se virava e me beijava. Me beijava sorrindo, se não rindo, e depois de se assegurar que meu desejo pendia o limite, se afastava. Retornava a janela e esgotava o tempo com longas conversas engarrafadas. 
Aquela sim era uma garota sádica. 



sábado, 24 de setembro de 2011


Filipe says: (19:43:52)
Quem lê bem, lê com bons ouvidos;
Ouve com atenção as sílabas tônicas
Lê com prazer as palavras sinfônicas
Escrevo uma frase sobre a luz artificial de um farol
Você interpreta os sons agudos da frase em clave de Sol
Escrevo sobre um pássaro que viveu em gaiola e em gaiola virou pó
Você interpreta os acordes da frase em uma linha da clave de Dó
Ouça Edgar Allan Poe e seu violino torvo
Em seu poema corvo




Eu,
você,
cama,
agora.

Ele sobre ela

Em toda a minha incomplexidade, cá estava eu analisando aqueles olhos azulados e fingidos. Fitava-os de tal forma que a incomodava, ela sentia como se estivessem espetando pequenas agulhas em sua pupila, desviava com fervor, como se escapando dos meus olhos estaria finalmente livre. Ela não é a garota vestida de vermelho e tem os cabelos bagunçados, como se tivesse voltado da praia e deixado assim mesmo, com um pouco de maresia entre os fios. As pessoas dizem pra ela “Como você é bonita!” até mesmo eu disse isso à ela uma vez, mas ela não acredita. Como é teimosa. Se resguarda muito, juro que um dia entenderei. Tenho um certo medo de adentrá-la e descobrir coisas que vou querer esquecer, sabendo que jamais conseguirei. Ela é muito sozinha, qualquer um percebe isso, mesmo que esteja rodeada de pessoas, um manto transparente a cobre e ele é percebível, mesmo que a maioria aja inconscientemente, a distância entre ela e os demais é incrivelmente visível. Não a amo, estou longe disso. Tão menos sou apaixonado por ela, isso nunca irá acontecer, o que é estranho. Eu a faço sofrer. Sofrer de uma forma desumana, pois está estampado em seus feitios que ela nunca derramou sequer uma lágrima por mim. Ela já não me deseja como antes, esse anseio diminui com o passar do tempo, a culpa é da minha indiferença. Ela não nasceu para pertencer à alguém, mas bate os pés no chão querendo ser minha, mesmo sabendo que eu nunca vou ser dela. E isso é tão pouco importante para ela... A maldita poderia ter quem quisesse, entretanto escolheu a única pessoa condenada a jamais estar contentada com uma só. E tem coragem de me dizer nas noites asteroidais que acredita em deus. Como é bobinha...
Ela ainda afasta o olhar e eu ainda a olho, ela está roendo as unhas preocupada com alguma coisa. Por que está tão deprimida? Inútil perguntar. Aposto que nem mesmo ela sabe. 


terça-feira, 20 de setembro de 2011

Marujos

Ah! Esses piratas que insistem em navegar nos meus olhos e saquear minha alma. Há três, o que me zomba, o que me deseja e o que me odeia. Não me amam, oh não.... Eu não me importaria se me amassem, até o suplico. Mas meu mar não é tão profundo e deixei de ser um enigma antes de ser. Os três mosqueteiros que me torturam sem permissão. Oh, não! Que fiz para receber esse mal? Meus três piratas (ou seria eu deles?) têm seus próprios tesouros, saquearam outros olhos, são cruéis. Gargalham dentro de mim, ecos da memória, ficam me martelando e se divertindo às minhas custas. Será que sabem? Será? Eles sempre me mimoseiam com histórias extraordinárias e beijos, carícias, provocações... Só podem mesmo pensar que é em vão. Achei que iriam parar, mas não param! Meus piratas, meus piratinhas, que querem comigo? Sou só uma garota, sou só uma mulher. Se querem me fazer sofrer, não o conseguirão. Se querem rasgar meu âmago, não o conseguirão. Nenhuma tarde de domingo irá me roubar de mim, sou minha! Entretanto, se um de vocês, piratas, encontrarem em mim sua ilha, eu aceito que fique. Mas um só, um só! Vão! Espadas à mão! Guerra! Guerra dentro de mim!

         Que chacota... Até parece que mereço tanto. Até parece que sou tanto para três piratas renomados brigarem pela posse. Tem ouro nenhum dentro de mim. É uma questão de tempo para meus olhos terem mapa e olhos alheios levarem meus piratas embora... E a paz voltará, como eu mesma – a não poeta de não duas décadas – sempre diz: E a paz volta à minha imensidão azul de amor!


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

"She loved to look at flowers
smell fruit
And the leaves had the look of loving

But halfass drunken sailors
staggered thru her sleep
scattering semen
over the virgin landscape

At a certain age
her heart put about
searching the lost shores

And the green birds singing
from the other side of silence"


"Ela adorava olhar as flores
cheirar frutas
E as folhas lhe falavam de amor

Mas uns marujos já de porre
penetraram no sono dela
semeando sêmen
na paisagem virgem

Numa certa idade
seu coração pegou a olhar
as margens perdidas

E ouviu passarinhos verdes cantando
lá do outro lado do silêncio"





sábado, 17 de setembro de 2011

Engasgo



Será isso indiferença ou uma dissimulação da dor? É muito difícil, muito difícil mesmo, ser eu. Digo isso sem drama, sem sentimento de vítima. É a mais bucólica e sombria verdade. Vivo engasgada dentro de mim como se fosse uma maldição rogada antes de nascer, como se nascendo meu pecado cometido fora maior do que os demais. Como se meu fardo fosse pagar por algo que não cometi. Eu não escolhi estar aqui. Mas estando, me obrigo a viver às margens, tolerando e convivendo. Eu tenho medo... A pior das aberrações do homem. Medo de não me confrontar, medo de estar perante um desafio e não enxergá-lo. Eu posso acabar indo para o inferno se meramente aceitar que eu jamais serei eu. E digo isso antes mesmo de morrer. O inferno é aqui e eu estou lidando com meus demônios.  

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Personale

E é sempre a mesma coisa. Você coloca o cigarro na boca antes mesmo de perceber que não faz a mínima ideia de onde está o seu isqueiro "Cadê, cadê?", você para pra vasculhar meticulosamente a sua bolsa e deixa porra do óculos de trezentos reais que tu suou pra comprar cair no chão, quando encontra a porcaria do isqueiro, acende e dá a primeira tragada, dá de cara num morro de trocentos metros que seu fôlego não aguenta pra subir. Isso tudo porque tua mãe está certa de que a filha é louca e faz questão de pagar outros duzentos reais semanais em consultas médicas que não te ajudam em nada, sem contar os incontáveis medicamentos que você re al men te precisa tomar pra justificar seu comportamento estranho e continuar sendo analisada como se você fosse um alienígena de quatro braços e olhos comedor de almas inocentes. Depois você é obrigada a criar longos monólogos pra explicar pros amigos a falta de grana pra beber nos finais de semana. E ai de ti se reclamar! Foi você que nasceu com o cu virado pra sei lá onde e nos faz gastar fortunas pra tentar conseguir consertar. A culpa é tua e tua família é santa! Tão te salvando! Você tem sorte, menina! Bate na boca e agradece o bom Deus que te deu essa família santa, vai pedir perdão, vai!


terça-feira, 13 de setembro de 2011



 Fumo, mas como fumo. Sofro, mas como sofro. Com ou sem motivo, não dá pra saber com exatidão. Traguei tudo numa tentativa fracassada de te arrancar de dentro de mim. Vou me banhar de ópio - pra ver se ajuda - e te rasgar na pele também, qualquer lugar. Mas xô de mim, ladrão de almas! Sufocador, maldito, maldito. Que ódio, que ódio! Morre! 
Tudo aqui é medíocre. Morra, vá embora.

Rei

Ele tem cara de Artur. Artur é um nome forte e aqueles olhos fundos e tenebrosos não me enganam. De certo, quando eu descobrir seu verdadeiro nome, será algo completamente diferente e meio sórdido, deve ter pais hippies. 

Aposto que gagueja, não por fraqueza, a culpa é de alguma Margot ou Isabel, que durante sua infância não souberam ser boas professoras e lhe aprimorarem a dicção. Ele gosta de garotas com perfume de flor, afinal, no meu mundo ele gosta de tudo que eu tenho.

Só que no mundo real ele deve ter uma garota qual ama muito. De cabelo escuro e liso até metade das costas. Bem magra e com uma risada estridente, deve se chamar Luísa. Toda meiga e cheia de detalhes. Bem dentro do previsível... Tirando uma briga aqui e ali, devem ter um amor calmo que perdura alguns anos já.

Será que faz a barba de manhã ou à noite? Ele é loiro e tem fios finos, será que eu os sentiria se passasse as mãos em sua nuca? Sinto inveja de Luísa que pode fazer isso até pegar no sono. Sua cor preferida é amarelo, eu sei. Nenhum cara gosta de amarelo, mas Artur é diferente.

Não arrisco em dizer que é único porque dentro de mim há muitos outros reis. No meu reino mando eu, e  nele, certamente, Artur é todo meu. 

Artur não fuma nem toma café por gosto, mas bebe igual um condenado. Bebe tanto que deve ter um fígado fodido - todo mundo merece algo de podre por dentro. Acho que ele não gosta de ler, mas aí seriam duas coisas podres e isso não é muito justo.

Seja lá o nome de Artur ou qual número calça, eu penso um bocado nele. Com muita sorte, um dia, ele terminará com Luísa e me dará a oportunidade de descobrir o sabor de sua boca, mesmo eu tendo medo disso. Vai que tem gosto de canela? Eu odeio canela. No meu mundo não há espaço para reis com gosto de canela. Até gengibre pode ser, mas canela não... Por favor!
Mulher alta, mulher baixa, mulher feliz, mulher triste. Mulher. Mulher meiga, ativa, passiva, caolha, gorda, raquítica, gostosa, cozinheira, amante, esposa, puta, faxineira, advogada, tagarela, muda, sádica, doente, ninfomaníaca, virgem, fumante, vegetariana, pobre, rica, francesa, espalhola, africana, americana, brasileira, argentina, inteligente, burra, nova, velha, morta, apaixonada, desiludida, filha, irmã, prima, mãe, vizinha, desengonçada, bem cuidada, crente, amada, traída, espancada, ladra, mentirosa, honesta, altruísta, tímida, desinibida,  branca, preta, amarela, sem cor. 

Amiga, amor, paixão, tesão.



segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Romance inexistente chamado vida real

-      -  Já sei. Vamos à Portugal.
-      -  Porra, não gosto de portugueses.
-      -  Nem eu...
-       - Então, por que diabos Portugal, Azul?
-      -  Porque não vamos precisar de carro.
-      -  Portuguesas não se depilam.
-      -  Como se você nunca tivesse metido a cara em pelos.
-      -  Não me apetece.
-      -  Cruzes, ainda bem. Mas vamos!
-      -  Certo. Não acredito que me dei por vencido com tão poucos argumentos... Só que longas conversas me desgastam.

E foram. Dinheiro não lhes era um problema. E ainda que fosse, tinham mesmo essa necessidade de viver às margens de tudo. Sucedidas tentativas de suicídio concederam à Azul proteção contínua de seus pais – não se orgulhava, não – porém seus impulsos imprevisíveis, viagens e relacionamentos carnavalescos e corriqueiros eram todos saciados. Isso a mantinha viva. Almejava um companheiro mental. Vermelho caiu-lhe como uma luva. Tão louco e perturbado, era um conquistador barato. Sem suas mulheres, não era nada. Seu gosto era sentir seus gozos grudarem entre as pernas e ter a certeza de que certa forma elas o pertenciam.

Azul mexeu seus pauzinhos e pouco passou para em Portugal chegarem. Vermelho arranjou-se em uma biblioteca (perdido que só), sua tutora portava mamas fartas e óculos de fundo de garrafa.  Em seu beiço a prova viva: Portuguesas não se depilam. Enojado pode ouvir o fio ralo da risada de Azul. Fora de propósito. Maldita.

Azul era bonita e não sabia agradecer. Não era linda como muitas, mas tinha sua própria beleza, o que a tornava ainda mais bonita. Um loft metido à séc. XX, três quartos, uma cozinha, sala e banheiro. “Porra!, sorriu estupidamente. Era o melhor galpão do mundo. Um mês depois, devidamente instalados e falando quase como nativos, chegou a hora de saírem do casulo.

-       - Acho que estamos prontos agora, Azul.
-       - Será?
-      -  Adoro pensar quem na sua vida sou apenas passageiro.
-      -  Fazem seis anos, Vermelho. Seis anos.
-      -  Mas você sabe que não somos eternos.
-      -  Amém!
-      -  Como nos apresentaremos?
-      -  Não sei, já foi difícil acostumarem com Azul naquela espelunca onde chamo de trabalho.
-      -  Você que escolheu trabalhar num café, sua mosca. Ao menos não tens que conviver das oito às oito com a doce, mas tão doce, dona Helena.
-      -  Esse nome é convincente.
-      -  Azul Veneza.
-      -  Não, quero Azul Moscou.
-      - Posso escolher o meu?
-      -  Sinta-se à vontade, capitão.
-      -  Vermelho Itália.
-      -  Amém!

Primeira noite se engarrafaram do melhor. Beberam beira rua e mexeram com quem se aproximava. Conheceram Leon. Um cara engraçado, fodido e fedido. Não era atraente e muito menos simpático, mas tinha um fumo bocado bom. Prometeu-lhes mostrar a parte bonita da cidade, mas todos ali sabiam que de bonito não veriam nada, mas bastavam-lhes as segundas intenções. Vermelho queria aprender gaita e Azul desejava incorporar um ar português sujo ao seu olhar.
Leon era um tanto cabuloso. Não sabia o que cargas d’água fazia da vida, conhecia todos os bares, e, aparentemente, todos os bares lhe conheciam também.

-      -  Vocês não vão me falar como se chamam?
-      -  Já falamos – Suspirou Vermelho, um pouco embriagado.
-      -  Mas veja só, Vermelho e azul serão, então. São o quê, afinal?
-      -  Como assim?
-       - Casados, namorados, amantes...
-      -  Não! – Azul largou seu cigarro e declarou voz – Somos apenas irmãos.
-      -  De sangue?
-      -  Adotado – disse cabisbaixo.
-      -  Vocês Brasileiros são estranhos.
-      -  Foi você que tropeçou em nós com uma garrafa de cachaça tendendo o vazio...
-      -  Falam de um jeito estranho, também!

A amizade durou apenas uma noite. Não necessitavam mais do que isso. Leon fazia perguntas demais e isso irritava Azul profundamente, ao contrário de Vermelho, que se entretinha com a curiosidade alheia.
E assim foi por mais cinco meses. Toda semana Vermelho trazia uma nova menina para morar em casa. Era esse o prazo. Uma vida em sete dias. Azul não se importava, mesmo que ela escutasse cada metida e ejaculação que vinha do quarto ao lado, acabava-lhe soando como poesia. Trancava-se por dias e escrevia, escrevia e escrevia. Era aquela a sua droga. E de volta e meia, Vermelho – com as pernas bambas – chutava-lhe a porta.

-      -  Saí daí, porra! Você não é o Kafka!
-      -  Morre, Nicolau!

E Vermelho sorria. Sua garotinha – e somente sua – era completamente louca.  E quando Flora, Anelis, Melissa, Bárbara ou qualquer outra ia embora, Azul saía de seu quarto e dizia sempre a mesma coisa.
-       Preciso sair e comprar mais cigarros.

A verdade é que precisava de ar, criava tantas histórias trágicas de amor que se mordia até o calcanhar por não viver nenhuma. Daquela vez foi diferente. Azul, boquiaberta, parou por um pedaço de tempo que sentiu passar como horas. Do outro lado da rua, com uma silhueta precisa, passava uma baita portuguesa.  Morena que só vendo, olhos de guerra e lábios rachados... Azul estremeceu até a espinha. Desejá-la foi inevitável, e como desejou, cada papila e extremidade do seu corpo agora pulsava, acabara de conhecer sua musa.
Entrou e casa e deslizou até o fim da porta. Sentia seu corpo em êxtase total e olhou para Vermelho que estava em sua frente com um olhar de espanto.

-      -  Achei que só podíamos nos drogar aos domingos.
-      -  Não estou chapada.
-      -  Tem certeza?
-      -  Sim, eu tenho.
-      -  Cadê o cigarro?
-      -  Na bolsa.
-      -  Que fantasma você viu?
-      -  Cala.
-      -  Curioso...
-      -  Se você ousar dar uma de conheço tudo e todos dos pés a cabeça agora, eu juro, juro por todos os dedos que tenho nas mãos, que durmo na rua hoje.
-      -  O que deu em você?! – E trancou-se no quarto.

Azul foi dormir inquieta. No meio da noite seu orgulho a abandonou junto ao sono...
-       - Me perdoa? – Sussurrou empurrando Vermelho para o canto da cama.
Um beijo na testa e o sossego sucedeu-se. As palavras muitas vezes eram apenas (totalmente) dispensáveis. O calor dos dois era um segredo.

No dia seguinte Azul forjou indisposição, quis faltar o trabalho. Sabia que mesmo estando em perfeitas condições, o cheiro de café e velhos barbudos embrulhariam-lhe o estômago. Queria um dia para si. Vermelho foi para o encontro de Helena e seus livros, deixando a pequena em casa entusiasmada, começou a arrancar os trilhares de quadros e papéis que tapavam a cor branca da parede de seu quarto. Equivocadamente escolheu o próprio vermelho, encheu quatro latas e esqueceu o caminho de casa. Levou uma hora cheia para se encontrar e mal sentia seus braços quando chegou. Assim foi que seu quarto ficou todinho pintado com aquela cor que queima.

O verão chegou. Adotaram um gato chamado Sessenta e Seis, ou somente Seis. Vermelho era apaixonado pelo maldito gato laranja e Azul sentia ciúmes sem ao menos saber. Ocupava-se em demasia em escrever à sua musa que nunca mais vira.

-       - Azul, eu estou com um problema sério.
-      -  Acabou o leite?
-      -  Não... Acho que me apaixonei.
-      -  Como é que é?
-      -  Ela morou aqui com a gente mês passado.
-      -  A Ana Marília?!
-       - Não...
-       - Oh, não, não, não...
-       - A Rebeca.
-       - Cala! Cala, cala, cala!
-       - Para com isso, Azul. Por favor...
-       - Sai daqui, sai, sai. Xô!
-       - Vou pra onde?!
-       - PORRA, é você que é cheio de amigos com C! Liga pro Cássio, Caio, César, eu não sei e não quero saber! Vai embora logo.
-       - Certo.

Socava as paredes, armários, tudo que via pela frente. Nem Seis saiu ileso da fúria daqueles olhos amarelados. Nada na vida de Azul era mais importante que promessas. E a maior de todas elas era nunca se apaixonar, nunca. Você pode usar as pessoas, mas as pessoas não podem te usar. Estava tudo arruinado. Sua doença a consumia. Sua doença estava ganhando.

Pegou a garrafa de bebida mais barata da estante e virou-a em dois toques, desceu de casa cambaleante para esvair as ideias. Encheu toda a cara, tropeçou a rua inteira. E, em plena tarde de quarta, vindo da esquina e vindo em sua direção, sua musa acenava.

-       - Você está bem? – Aquela vagabunda tinha uma voz hipnotizante.
-       - Não.
-       - Quer beber um café e conversar a respeito?
-       - É simpatia demais pra uma rapariga só.
-       - Tenho tendências de resgatar bêbados caídos na rua.
-       - Isso não é nada racional.
-      -  Ah, meu bem... Eu quase não sinto medo nessa vida.
-      -  Você foi estuprada por um padre ou algo assim?
-       - Pior.
-      -  Você precisa conhecer o meu irmão.
-       - Por quê?
-       - Vai gostar dele mais do que de mim.

E mesmo bêbada, com os joelhos esfolados e a raiva dissipando seu corpo, traçou um plano vingativo. Trocaram telefone e Azul foi para casa desmaiar. Chamava-se Lou. Provavelmente Lou de Louca.
Exatas meia noite e Vermelho voltou, aturdida, levantou-se e jogou-se em seus braços.

-       - Promete que não vai mais vê-la?
-       - Não.
-       - Isso, meu amor! – E tascou-lhe um beijo nas têmporas.

Três dias depois, Vermelho e Lou foram devidamente apresentados. Azul estava feliz novamente. Lou era difícil, mas nada que um filho da puta manso como o Vermelho não conseguiria mudar, que sequer fazia ideia da traição de Azul...
Em seu quarto a arte penetrava. Estava possuída, em transe. Foderia si mesma se as mãos não estivessem ocupadas escrevendo. Ali nasceu a moça bandida que roubava sentimentos. Lou se mudou em um par de meses. Ela tinha seu próprio quarto, mas era de se esperar que à noite ocupasse a cama de Vermelho. Os dois juravam silêncio, porém as paredes eram finas e Azul não tinha sono. Escutava e sentia o prazer deles. Os gemidos abafados estalavam no vão da porta, e casa chupão, puxada de cabelo e mordida era transformado em palavras no livro preto de Azul.

De manhã sentia como se tivesse passado a noite toda provando do ventre de Lou. Azul ficou distante, dentro do seu mundo e Vermelho sabia. Sabia que havia algo errado. Quis morrer.

-       - Hoje estou cansado, Lou.
-       - Certo, certo. Você bebe do meu gozo toda noite e acha que a qualquer hora e qualquer momento pode decidir se me quer ou não?

Lançou um olhar fúnebre e fechou-lhe a porta na cara. Perdeu-se na noite, provavelmente enchendo a cara com seus amigos invisíveis da faculdade. Voltou alta e na ponta do pé. No quarto, Azul vestia somente uma camisa e sabia exatamente o que vinha pela frente. Sua capacidade de prever o futuro era surpreendente. E assim foi. Silêncio e estalo de beijos molhados. Seios palpitantes e mamilos enrijecidos roçando-se. As pernas entrelaçadas, encaixadas, lambidas no sangue fervente entre elas. Lou doou-se como banquete e Azul provou de sua musa. Era doce como imaginava, mas algo terrível doía em seu peito e Azul sentia como se fosse nela. Gostou tanto disso que a cada vez que escorregava seus dedos dentro de Lou, apertava-lhe um pouco as unhas para ter o prazer de ver suas costas arquearem de dor. Lou sorria, massacrada e prostrada na cama de Azul. Elas sabiam que estavam pecando.






(...)

sábado, 10 de setembro de 2011

Labirintite



- Ando confusa esses dias. Você não me compreende!
- Blábláblá, tudo é você não é não? E eu, querida, e eu?!


Você não vê como eu vejo. Molho meus lábios no vinho, bons tempos aqueles em que eu não amava ninguém. Estou fedendo a cigarro e me forçando sorrisos idiotas no rosto. Como uma tartaruga que se esconde em seu casco ou um caracol que possui a sua concha, recolherei-me dentro de mim até que essa dor presa no pescoço suma. Se ao menos eu me entendesse um pouquinho mais... Como se achar sem nunca se perder?


- O que você está fazendo? - Você perguntou empurrando minhas pernas para sentar no sofá.
- Tentando deduzir se me ama de verdade.
- Você está duvidando da minha palavra?
- Não, me desculpe. Estou tentando deduzir se me ama o suficiente.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011


"Às vezes eu gostaria de pensar que você se lembra de mim, mas bem... Eu não estou ativo e não posso reclamar! Assim sendo, eu quero te deixar a parte de meus planos, já que eu estou tão nervoso com isso... Você jamais vai se lembrar de mim novamente... Ou independente do que aconteça, você pelo menos escrevera, nem que seja numa fula rasgada, que você já sentiu saudades de mim!"
Kauê, acha mesmo que eu me esqueceria logo de você?

Uni duni duni tê,
Salamê minguê,
O escolhido não foi você.



E eu aqui tentando me enganar!

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Vertigem

- Não consigo parar de pensar em você.

Tenho um problema - pensou - e sentiu uma súbita vontade de vomitar algo de si que parecia podre. Trejeitos em decomposição que há anos havia guardado. Desejava-a, sim, mas não conquistá-la. Como se ao fazê-lo roubasse parte de sua feminilidade e inocência perturbadora. Nada nela o agradava, e mais do que isso, a cada vez que abria sua boca para expressar opiniões vazias seu repúdio revelavasse ainda maior. Não havia dúvidas, teria que matá-la, assim como as outras. Ela se entregou, e seu fardo seria enxergar o lado sujo e grotesco do amor.

Massacrou-a de diversas formas, nada nem ninguém entendia o como ela era capaz de amá-lo. E sim, ela o amava verdadeiramente, mas a maldita parecia não se importar com nenhuma tentativa de humilhação que ele depositava nela. Ele era baixo, baixo, muito baixo. Fazia ela se apaixonar e cair de cara no chão com suas palavras de conquistador barato. Ele sabia exatamente como fazer uma garota abrir suas pernas. Mas ela era diferente, ela era muito melhor do que um dia ele seria. Ela o amava, o sexo era ótimo, mas a sensação de que ele não a tinha completamente queimava por dentro. Pois, embora pequena - mas não baixa como ele - não depositava suas esperanças num amor profundo e eterno. Não tinha uma fome animalesca por amores boêmios ou do tipo eu te amo, tu me amas, seremos felizes e veremos nuvens coloridas quando amenhecer.  Ela era realista. E isso o irritava.

Aos poucos e dolorosamente, a relação se desgastou. Eles seguiram seus rumos e o que sobrou foi um sentimento de rancor e uma tarefa não cumprida nele. E ela, que se tornou um mistério, viu-se diante de um abismo pessoal. Não sentia como os outros. Seus sentimentos mórbidos a tornaram forte, mas tudo que queria era ser fraca. 

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

- Ela ficou tão fria…
- À toa é que não foi.

.
Você mentirá várias vezes que nunca amará ele de novo e sempre amará, absolutamente porque não tem nenhum controle sobre o amor.



Sim, eu odiava ter que me levantar da cama de manhã. Significava que a vida ia recomeçar e depois que se passa a noite inteira dormindo cria-se uma espécie de intimidade especial que fica muito mais dificíl de abrir mão. Sempre fui solitário. Você vai me desculpar, creio que não regulo bem da cabeça, mas a verdade é que, se não fosse por uma que outra trepadinha legal, não me faria a mínima diferença se todas as pessoas do mundo morressem. É, eu sei que isso não é uma atitude simpática. Mas ficaria todo refestelado aqui dentro do meu caracol. Afinal de contas, foram essas pessoas que me tornaram infeliz.

Que foda!

Marisa fode Luiza que já fodeu com André que tá fodido por causa de Júlia. Fodido porque Júlia fode com todo mundo quando na verdade queria foder com a única pessoa que não quer saber de foder ela. Marisa fode Luiza pensando em foder Camila. Camila não fode mulheres. Camila não fode ninguém. Camila só quer saber de foder com a vida de todo mundo e não sabe fazer isso, chora toda noite por ter uma vida fodida, fuma mil cigarros e espera o tempo passar como alguém faminto espera por alimento. André já fodeu Ana, Gabriela, Iana, Thalita, Lorena, Maria, Luiza, Nicole, Juliana, Bruna e todas as outras que sentiu vontade, mas quando se trata de foder Júlia, estremesse. Fodeu Júlia até cansar, fodeu fodeu fodeu e quando viu estava fodido de tanto amá-la. Se apaixonou e caiu num buraco fodido de ódio próprio. Depois de Júlia, esqueceu as outras, que apesar de serem muito boas na cama, precisavam dele. Júlia não precisava de ninguém, tinha suas mãos, fodas a hora que sentisse vontade e o gosto amargo de querer foder Flávia. Esse era seu segredo. Queria foder Flávia e sabia que Flávia não foderia com ela pois Flávia era fodida de amores por Lucas. O fodido do Lucas. Lucas só sabe foder com a própria mão - se é que faz isso direito - e nada mais. Marisa fode Luiza e Luiza fode Marisa. Lençois sujos de tanto foder e rir da vida fodida alheia, descobrem que têm em mãos uma coisa única e essencial: A necessidade de se foderem como se fosse a última foda do mundo e a certeza de que não dependiam uma da outra. Tudo é mais simples quando o amor não é a única saída. E isso basta.






Penso. Penso. Penso. Não me resta nada mais além de pensar, é como se minha vida dependesse disso. Predestinei meus passos quando decidi não os dar mais. Penso, mas não existo. Respiro, mas não vivo. Amo, mas não dói. E se não dói, não é.

Marina


Ando carregada, carregada de nuvens que circundam meu interior. São tão pesadas que minha alma cansou-se até de lamentos, justo eu que tanto choro escondido. São nuvens de despreocupação e indiferença, sobrecarregam meus órgãos e me fazem sangrar. Não apenas em um ponto como o coração, mas em muitos outros pontos e por muitas outras partes, até algumas que eu mal sabia que existiam. Ambientes inóspitos dentro de mim tornaram-se lar de sentimentos de amargura que eu não desejei. Tornei-me uma solidão constante, e isso verdadeiramente me dói. Queria conhecer mais as cores antes de me tornar gelada, e gostaria de conseguir transparecer toda essa minha dor... Mas não consigo. Aparento contentamento, felicidade. Mas sou apenas um poço vazio.
Nunca simpatizei com festas, não apenas após esses tantos problemas pessoais. Pessoas em demasia, vozes altas, bocas excessivamente molhadas de misturas sutis de tesão e álcool, músicas ruins, comidas frias. É tudo tão depreciado, esgotado, sujo, forçado. Mas cá estava eu, tentando animar-me... Há vezes em que me forço tanto em situações que acabo criando novos mundos dentro de mim, consigo criar novas personalidades e novas histórias. Eu consigo plantar sorrisos.
Não gosto de ser fraca com bebidas, não gosto de ser fraca com nada. Mas ser fraca com bebidas me deixa diante de meu maior medo: Ser exposta. É como se abrissem meu crânio e sugassem todas as minhas linhas, todas as minhas vidas. Posso parecer um pouco exacerbada, mas é apenas o que eu sinto.
Colocada diante de pessoas que eu jamais vira antes, me vi obrigada a plantar meus sorrisos e me sentir confortável. Isso me mantinha com a constante sede de álcool no sangue, me pondo em conflito com meus medos, mas por que eu iria me importar? A noite era minha, minhas ilusões, ninguém iria estragá-la.
Acho que foi quando eu estava perdida nesses pensamentos que eu a vi entrando, nervosa. Eu sentia sua essência de longe, era como um perfume delicado que percorre junto com o ar, brincando comigo e me provocando. Eu achei isso insinuativo, mas não o suficiente para me despertar vontades. Mais álcool.
Acho que aos poucos, como dois imãs atraídos, nos aproximamos e acabamos criando um elo forte de uma noite. É engraçado como fazemos amigos intensos e verdadeiros com facilidade quando estamos sob influência do álcool, é uma pena que eles durem apenas uma noite... Ou uma pequena temporada. Mas incrivelmente essa hora eu já estava envolvida o suficiente com aquele pequeno jeito ingênuo que Marina demonstrava. Me despertou a primeira vontade: A vontade de entendê-la. Roguei uma praga à mim mesma desejando que a próxima não fosse tê-la. Eu não podia.
Eu estou mergulhada nas minhas contradições, vivo em crise, uma guerra constante contra mim mesma e isso não deveria acontecer com tanta frequência... Eu preciso de um cigarro! Eu preciso de você! Não! Eu preciso de um cigarro! De você! Um cigarro... Você. Cigarro. Os dois.
Pressionei-te contra o carro e te beijei. Meus dedos colaram na tua pele e de lá não queriam sair. Embora todas as outras partes do meu corpo estivessem gritando alto de que isso era um terrível erro, e que eu iria me arrepender. Mas de que me importo? O álcool, minha cabeça, a nicotina... Não são boas misturas, certamente não são. Eu preciso ir embora. Você não é uma poesia, eu não posso, eu não preciso, mas eu quero. Merda!
Meu dia seguinte foi uma dura, dura dor de cabeça. Eu e meus problemas. Eternos amantes. Tentei me recordar de fatos que haviam apenas se tornado relapsos de memória, acho que minha mente corrompeu as imagens para que eu não me atordoasse o resto do dia.  Lembrei e depois esqueci. Vivi meu dia seguinte com cautela e calma. Muitos cigarros, muitos cafés. Meu segundo maior amante: Meu sofá. Meus sonhos. Meu descanso. O meu próprio e só meu egoísmo.



terça-feira, 6 de setembro de 2011

Esbraseado

 Essa coisa que queima aqui dentro me guia e eu vou as cegas. Indo e caindo. Minha mente e alma são donas da verdade e sou eu que dito as regras, afinal, não é possível que tu saibas o que eu verdadeiramente penso e pretendo. Atrás dos olhos, escondo coisas que você nem imaginaria, nem perceberia. Namoro comigo mesma, não preciso do teu corpo físico para me sentir correspondida, te criei dentro de mim e isso de certa forma me basta. Auto suficiência explicita. Assim é tudo mais bonito, tudo mais caótico, tudo mais intenso e tudo mais meu. O mundo grita alto dentro de mim e meu silêncio o cala. Criei um jogo. E quando ele conseguir me rasgar, explodir e me fazer desabafar, te pego pelos braços e te faço sujar meus lençois como sonhei semana passada. Ah, meu bem... Será que esse dia vai chegar?

Mil e sexo

22:29
Levantei do leito e não conseguia voltar, minha inquietude cedia espaço a pensamentos suicidas e decidi fumar um cigarro pra ocupar a insônia com fumaça. A janela suava e o vento lá fora fazia um zumbido preciso, me dispus no parapeito para sentir ele bater nas maçãs do rosto. "Queria tudo, menos estar sozinha hoje..." era a frase que se repetia incessante quando fechava os olhos. Eu estava quase implorando a Deus - coisa que julgo absurdo sem tamanho - para que a noite se desvanecesse rápido e deixasse um pouco de paz quando olhei para meus tênis jogados no canto do quarto sussurrando "saia de casa, idiota". Mesmo não tendo para onde ir, o fiz. Não precisava de mais nada além de uma garrafa Dos Equis e uma carteira de Marlboro para fazer o tempo passar. 

23:43
- Quem é?
- Sou eu. Onde tu tá? Tô te ligando loucamente.
- Eu não queria atender... Tô numa praça perto de casa, por quê?
- Vem aqui em casa, vamos sair.
- Acho que não...
- Vem, caralho!
- Ok. 10 minutos.
- Beijo.
- Tchau.

01:35
Porra. Dor nos pés e dor nas mãos. Aonde vim parar? Tô sozinha e rodeada de vulgaridade. Pessoas vazias e azedas. Mulheres baratas e homens deprimentes.  Fugir daqui e para bem longe.

03:47
De volta ao meu quarto, me satisfaço com a conclusões que tiro sempre que tento me misturar. Prefiro estar sozinha à estar com todo mundo. Prefiro uma noite de insônia à ouvir música alta e respirar o bafo alcoólico de conversar inúteis e corriqueiras. Eu não quero saber quem está saindo com quem, quem traiu quem ou qual é a porra da nova edição da Vogue. Foda-se se aquela menina fez escândalo na última festa ou se ela não tem nada na cabeça. Vão se foderem. Arg.

07:23
Dia lindo. Dia lindo. Queria tudo menos estar sozinha hoje...


(E o ciclo continua)