segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Metodologia do castigo

Recebi um novo corpo esta alvorada. Grosseiro e com mãos brutas, a primeira percepção é de que seu delito tenha sido um dos mais obscenos diante da lei. Mas não me carece saber as procedências do indivíduo, e sim suas finalidades experimentais.

O corpo está exibindo extrema violência e resiste aos meus experimentos. Foi necessário ata-lo e cortar-lhe a língua pois minhas noites de insônias estavam sendo obstruídas por xingarias numa língua estranha - presumo que seja algum tipo de dialeto esloveno – e agora estou reconfortado apenas com urros densos de mortificação.

A dificuldade de alimentar-se devido a ausência da língua está aos poucos atrofiando o corpo que outrora foi rijo e feroz. Já não está tão selvagem e desistiu de lutar contra as amarras, pois elas lhe gastaram a pele deixando a carne dos punhos à mostra, o que causa evidente dor em qualquer tipo de movimento.

Me vi forçado a exceder seus limites mutilando um pequeno pedaço de sua panturrilha em rasgos precisos com uma lâmina fervente e recém afiada, a fim de estudar a dilatação da íris e a contração dos músculos faciais quando em pé. Erroneamente queimei-lhe também as solas dos pés.

Os últimos atos de sua exaltação têm sido as pequenas agulhas introduzidas uma a uma em seus tímpanos, torção dos mamilos e os ossos da base esmagados com uma rocha plana cuja qual meus comensais encomendaram. É imprescindível que o corpo jaza imóvel no procedimento final que ocorrerá amanhã junto com sua salvação.

Proferi as palavras impecavelmente e para meu diluvio consegui fazer com que esse encontrasse o deleite mais tardar comparado ao corpo número cinco do semestre passado. O coração permaneceu ritmado enquanto o cérebro liquefazia escorrendo pelas narinas, ouvidos e boca, empurrando-lhe também as órbitas oculares até que se desprendessem inteiramente do crânio. As unhas encravaram sangrando e todos os poucos músculos restantes endureceram causando cãibra visível.

Uma hora e vinte de processo e pude coletar amostras suficientes para encher dois vidros de quartzo. Um com um líquido viscoso e transparente que chamarei de Gozo. E o outro escuro, porém também transparente, areado com cheiro forte e ruim. Chamarei este de Vida.

Nenhum comentário: