sábado, 15 de dezembro de 2012

Quimera e miséria


Lembro-me do dia em que tive a maior de minhas descobertas pessoais, descobri que essa sensação de insuficiência que convive comigo desde os mais primórdios e frívolos momentos do meu cotidiano na verdade é saudade, saudade de coisas utópicas. Sentimentos tão excessivos que não poderiam ser apenas parte hipotética de minha vida. Descobri, então, que sinto constante saudade do que nunca vivi e senti pois aqui, dentro do meu seio, onde palpita meu tão gritante e vívido coração, concretizei todos os mais intensos sentimentos, histórias e segredos que observei, criei, li, sonhei e escrevi. É tudo real e tudo reside dentro de mim. 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Prece

És o meu levante noturno, vou até a cozinha apalpando as prateleiras em busca de um copo d'água, novamente te encontrei em sonho. Tua forma de dizer adeus dentro de mim. Eu não aceito o fardo de que não és meu e eu não mais serei tua, com minha água em mãos vago trêmula e cansada até o banheiro, prendo o mesmo cabelo que você diz com expressões de gozo que gostas tanto de puxar e retorcer, me abaixo, lavo o rosto corrente. No espelho, não me reconheço. Vejo cicatrizes invísíveis e sulcos fundos, olheiras que anunciam minhas noites mal dormidas. Puxo minha pele, talvez com deformes eu me veja, me compreenda. Ela é macia, uniforme, continuamente branca e nova. Estranho transparecer tanta vividez onde por trás há apenas carne morta. É claro que é momentâneo, um novo let it be em minha vida. És o amor presente, o amor vivido por mim tão intensamente e deixado à esmo pela tua desfarçada infantilidade. Imaturidade de corpos, somos poesia. Sim, poesia... aquelas que tens nos olhos e eu não posso ler. Aquela poesia que deixamos em suor e cheiros pela minha cama, esse alvoraçado, incompreensível sentimento cultivado, denso e terrivelmente irracional. Não faz sentido, me apaixonei, me entreguei e me reparti novamente em oceanos e céus de lamúria. Azul, por que não me deixas? Por que me procuras com sensações de morte quando tua imagem é símbolo de calmaria e esperança de um horizonte novo? Seco meus olhos que não choram, minha boca que não geme e todo o silêncio teu que em mim fez morada. Volto para o quarto ainda cambaleante, um pouco mais fresca e a memória menos relapsa. Deito, apanhada em meus joelhos que quase encostam os lábios... fecho os olhos e rezo ao deus que jamais acreditarei que me traga um pouco de paz, ao menos em sono. Que leve esse tua presença materializada em meus pensamentos embora, ou as guarde em um lugar seguro do meu passado. E assim, imploro todas as noites pela tua partida de mim.

domingo, 2 de dezembro de 2012

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Como qualquer verdadeiro curta metragem da vida real, tivemos um final trágico. O amor só existe em livros, nos livros que não narram a minha vida, meus pensamentos conturbados e principalmente o que eu sinto por ti.

Te encontrei forjando risadas e envergonhada, embora fosse nosso trigésimo segundo encontro, embora eu já tivesse visto sua face se contorcer em orgasmos, dormindo, espirrando e coçando a pouca barba que tens. Embora tudo isso, te encontrei como se fosse a primeira e já havia esquecido da veludez dos teus lábios grossos e da leveza da tua mão em minha nuca.

É claro que eu ri tolamente e fracassadamente brinquei com coisas bobas entre a gente, agi como uma garota e não como a mulher que eu realmente sou por dentro. Eu queria sua atenção, há muito tempo não ficava cara a cara contigo sem nenhuma outra pessoa que nos causasse perturbações. Tínhamos que conversar, mas eu patinei pelo chão polido e brinquei de escolher meu presente preferido pelas vitrines. Preferível acreditar que essas coisas frívolas são o frio suficiente na barriga que me eleva durante os dias.

Bebemos cerveja, nos mordemos e aqueles arrepios malditos trouxeram o passado tão onipresente suplicando para ser resgatado, algo estava errado. Acendi um cigarro e nos aproximamos... quando, finalmente, por alguma desgraça do destino nossos lábios se tocaram, aquela mágica babaca aconteceu, como se nossas bocas fossem feitas do tamanho exato para se encaixarem e nunca mais descolarem. Como se fosse um crime inato não estarmos juntos.

Mas, como qualquer verdadeiro curta metragem da vida real, tivemos um final trágico. Jazer descolada num amor sem palavras, sem rumo e transparência. Eu preciso de ti, mas preciso de ti inteiro... e isso jamais poderás de dar. Você disse com os olhos a patética covardia que te rege. A chuva me levou embora e o “eu te amo” que sussurrei uma única vez baixinho no teu ouvido enquanto dormias, ficou comigo. Roubei-o de ti.

E eu nunca mais serei tua.