terça-feira, 11 de outubro de 2011

diz o sabiá


Eu sou um piscar de olhos trepidante. Cada piscadela aguardando você ir embora, raspa! Esfola. (Não sei escrever como antes, sinto falta daquela ganância aguda e dos calos dos dedos por causa do suor atrevido e ardente quando a arte brotava de dentro de mim gritando pelo papel e caneta... Agora tenho esse teclado vagante – que nunca vacila - onde adoro compor pelo barulhinho agradável que faz. Tec tec tec.) Enfim, sou piscar de olhos porque sou transitória e cadente segundo a Bailarina Branca (uma maçante com olhos de ébria, por sinal). Dizia isso porque não compreendia que eu ficava esfregando os dedos na cara a cada segundo pois me mordia toda de pânico de alguma guria de sorriso valente calhasse qualquer hora dessas. Sempre fui toda cheio de medos, mas não foi uma garota que fodeu o resto desse texto.

Volta e meia passa pela rua um carro branco que me faz lembrar daquele calhambeque imundo que o Thiago tinha. Meu, era apavorante! Parecia uma espécie de geladeira com motor, só que era insuportavelmente quente por dentro e os vidros estavam emperrados. De qualquer forma, eu adorava passear naquele pedaço de lata acabada. Seu charme fazia parecer que estávamos dentro de nuvens aladas e iríamos para o melhor lugar do mundo brincar de bate-boca e boca-a-boca. Infelizmente sempre acabávamos numa sessão de cinema fajuta com casais assanhados do lado. O Thiago falava muito pouco, sabe? Ele gostava de escrever mesmo. Não sei se ainda escreve... Pouco importa agora. A última vez que o vi nos esbarramos na rua como se nunca tivéssemos nos visto antes e assim é melhor. Bom, essa foi a última vez. A primeira foi um bocadinho mais interessante.

Eu sou magneticamente atraída por certos tipos de coisa, acho que foi o cosmo que me reservou a ignorância de achar que em cada porta há uma possibilidade de paixão. Foi mais ou menos assim que eu encontrei a porta do Thiago e dei com o focinho dela. Que madeira dura do caral... É que ele usava uma jaqueta de couro na época que o deixava com um feitio rude, exatamente do tipo que eu ainda não havia degustado. Tudo nele gritava meio sujo, grosseiro, do tipo “vou te pegar pelo cós e destroçar tua blusa”. E o resto contribuía... Mãos ásperas, cheiro puído, sapato desengraxado... Acontece que Thiago tinha um baita segredo (como todos os outros... Eles sempre têm segredos. E os segredos sempre sobram para a minha boca não contar).

Ele morava, ou mora ainda, numa casa de madeira lustrada, bonita demais, no elevado de uma rua aqui perto de casa. Me buscava com a lata branca dele e íamos fingir que puxávamos incenso no seu quarto, com aquele globo vibrante girando e girando refletindo as paredes. O cachorro dele que morreu... Um salsicha amigável, não recordo mais o nome. A gente falava sobre assombrações e espíritos, porque na época eu tinha muito medo de acordar no meio da noite pra beber água. Às vezes ele ficava até eu pegar no sono. Ao contrário da minha primeira impressão, ele era muito afetuoso e jamais tentou sequer desabotoar minha calça antes que eu mesma tomasse as providências de abri-la. Doce demais. Blé.

Foi mais ou menos assim, depois de uma trepada com roupas que ele me contou da menina. Acho que o nome dela começava com C... Ou A... Vou chamar de Fernanda. Acontece que um par de anos antes de nos conhecermos ele havia tido um romance longo com essa Fernanda que não queria de jeito maneira ter alguma coisa séria com ele, de praxe se a tal não tivesse uma doença terminal. E como ele era brutalmente apaixonado por ela, é de se esperar que ele ficasse brutalmente arrasado também, mas não. Ficou lá com ela até os últimos dias e até hoje mantém uma relação social com seus pais. Ela o fez prometer que não os abandonaria (achei bem cruel de sua parte). Era um segredo forte, só que o negócio não era esse. Ele me contou isso olhando para o globo chato dele que estava parado, com os olhos tão secos, mas tão secos, que fiquei me perguntando se algum dia na vida ele teria chorado.

Eles tinham um jogo de Desafios espantoso. Gostavam de se provocar com coisas estranhas e ao mesmo tempo não podiam dizer não. Transavam no hospital, matavam filhotes de passarinhos, davam em cima de pessoas trinta anos mais velhas, puxavam brigas, alugavam coisas em nome de outras, cuspiam dentro da maionese de bares e coisas babacas e nojentas.

O seu verdadeiro segredo eram as últimas coisas que a garota tinha dito pra ele, uma espécie de praga. Ele nunca me contou exatamente as palavras, possivelmente por ter medo que ocorresse comigo também. Mas, por algum tipo de delírio leucêmico, ela o amaldiçoou a nunca mais conseguir amar uma garota. É óbvio que aquilo era ilusório, ele sabia disso. Só que aquelas palavras mexeram tanto com ele que o cérebro dele pifou e toda vez que conhecia uma nova garota com o potencial satisfatório de amar, ele recuava. Dando sentido real ao cara broxa. Ou seja, aquele vagabundo esperou quatro meses ficadas e sexo calouro pra me contar que ele nunca iria se apaixonar por mim.

Existe uma coisa com nós garotas que é expert em quebrar a cara, nós nos apaixonamos cedo e nos entregamos cedo também. É claro que vocês nunca percebem, a visão esterificada e conturbada não os ajuda. O negócio é que muito antes de vocês cogitarem ter algo conosco, nós já planejamos tudo. É neurose, fazer o quê? Eu fiquei bem perdida na época, eu era bem mais nova do que ainda sou hoje. Eu perguntei pra ele o que ele queria me dizer com aquilo e ele disse exatas palavras “Pra você ficar com os pés no chão antes de se apaixonar por mim”.

Aquele dia foi nostálgico, fui pra casa e chorei como deveria chorar. Eu escrevi para ele (tínhamos o costume de pendurar nossas cartas no varal dele) e pendurei, disse que não queria mais vê-lo sem grandes explicações. No dia seguinte passei para ver se ele tinha apanhado e encontrei um bilhete, que  guardo dentro de uma caixa escondida mas sei exatamente o que está escrito...


“É como a lua conta, uma dor vai e outra vem. Não dá para fugir disso, Mar. Conserve consigo o reflexo que criamos entre quatro ou mais paredes daqui de casa e siga o rumo que quiser, mas, por favor, não esqueça o quanto fomos importantes um para o outro um dia. Jamais esqueça.”

E é mais ou menos assim que se resume a história de um dos vários vilões da minha vida.

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