terça-feira, 30 de setembro de 2014

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Em frente à minha janela existem três casas parecidas com a minha, arriscaria dizer que são exatamente iguais. Em frente à minha janela moram famílias monótonas que não me inspiram interesse algum. Acordei trinta minutos mais cedo e esperei o tempo passar na sacada, pelos sons da minha rua deserta eu sabia qual casa já havia despertado e quem escovava os dentes. Eu conheço a rotina de cada vizinho, embora não saiba seus nomes. É uma intimidade estranha. Acho que tropecei cinco vezes indo ao trabalho, esqueci Goethe em casa e me enchi de tédio ao imaginar como seria o resto do dia assim. Tropecei mais outras cinco voltando, entediada, estressada e cheia de fadiga. Esqueci as chaves de casa e deitei no portão, com a cabeça no meu casaco (eu sempre levo casacos). Peguei no sono esperando alguém aparecer, atordoada acordei e vi pela fresta da janela da casa em frente, alguém me observando. Senti algo terrível, meus vizinhos saberiam também da minha rotina? Acenei para pessoa e ela sumiu. Contei formiguinhas e desde então estou vigilante do lado de fora, tentando observar o que faço. Acho que fiquei entorpecida inúmeras vezes ao me pegar sendo igualmente monótona. 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

201403

Não sou capaz de te esquecer, ainda que te esquecer não faça parte de meus planos. Ainda que meu plano maior não tenha sido promovido por mim, mas pelos meus castigos. Perpétuos na minha imagem refletida distorcidamente em qualquer espelho. Minha não capacidade em te esquecer me torna fraca? Questiono. Libero a fúria de um coração calado pelos olhos lacrimejantes. E, embora eu diga sempre saber do que me habita, não sei como tua morada em mim tornou-se perpétua. Não sou capaz de te esquecer. Mentalizo a possibilidade de teu esquecimento ser parte da lembrança do "amar-me" que meu ser luta violentamente contra. Talvez tua estagnação dentro de mim seja meu verdadeiro cárcere. Lembrar que te amo é aceitar que sou pequena e não mando em mim.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Paradoxo

Ainda que minha particular poesia cante
palavras repetidas de sentimentos ambíguos
ao escrever eu me dispo das vestes
que me embebam dos mares da dor
Nua e repleta de azul, ofereço aos céus meus cânticos
e infortúnios causados pelos meus olhares românticos
Minhas palavras são tão repetidas
quanto os ecos de meus gritos
contraditórias cantam réplicas
dos próprios males
que através delas
renuncio.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Engrenagem

Perco a batalha invisível 
situada sob teu olhar 
a dúvida de teus gestos 
dilacera meus órgãos 
que sangram irregulares
multiplicados pelo meu corpo 
que está violentamente 
condenado pela tua presença
à um perpétuo desassossego

nada digo, nada de mim 
faço ser percebido por ti 
só, aguardo envergonhada
o dia em que tua boca afoita 

enfrentará minha gaguejada fala

sábado, 6 de setembro de 2014

Presságio

Essa noite sonhei. Sei que, inevitavelmente, sonho todas as noites e em todos os sonhos ultrapasso pensamentos peculiares em desconstruções e subúrbios. Mas o que diferencia este sonho dos sonhos que sonho todas as noites, é que eu era capaz de sentir e tocar como sinto e toco desperta. Sonhei com a cidade noturna em que moramos, em sua exata forma, arquitetura e semblante dos céus. Sentia o cheiro em absoluto de tudo que me rodeava, de forma que distinguir meu sonho da realidade só fora possível pela manhã, quando acordei em soluço. 

Passeei pelas ruelas desertas de minha consciência aflita pela tua presença, procurei-te em cada lugar que conheço desta cidade, mas não te encontrei. Estava, naquele momento, agustiada e delirante por estar semi acordada, num sono que não me acolhia por completo. Enquanto carne, revirava meu colchão, enquanto quimera, corria quarteirões. Quando pude finalmente fechar minhas pálpebras cansadas e deveras embriagada, juntei-me ao exército que fui capaz de encontrar em minha criatividade fraca para me acompanhar em tua busca. Cada minuto em tempo real era-me como horas de uma noite infinita. 

E buscar tornou-se minha perversa diversão, tua inalcançável presença e meu inabalável anseio de ti me levaram a becos e beiradas. Entrei em inúmeras casas e igualmente incontável cumprimentei suas famílias, que me desejavam fortuna e sorte, como se acompanhassem participantes de minha busca, minha busca por ti. Meu martírio afincava meus pés ao solo, cada vez mais meus pés agora exaustos pediam por um pequeno momento de trégua e minha intacta esperança não me permitia descanso, queria te encontrar. 

Meu corpo ancorado à calma da cidade, que não estava vazia. Avistava pessoas em todos os bares e como havia bares! Acreditei que te encontraria em um deles, entrei em todos os bares de que tenho conhecimento. Não estavas em nenhuma cadeira, em nenhum copo. E cheio de amargura, o dia começou a surgir. Comecei a acreditar em tua impossível presença e fui desalinhada pelos infortúnios da realidade, ainda que em sonho. Retornando para casa, ri de minha tragédia, nada mais havia a procurar. 

E ainda retornando para casa num silêncio arruinado e regurgito pelas aves e seus estranhos piares de aurora, foi que te vi pela primeira vez na noite deste sonho, diferente de todos os outros. Uma larga avenida separava-nos e atravessá-la em direção ao parque em que estavas era-me uma ideia tão severa e dolorida quanto a ideia de arrancar toda minha pele que me reveste e protege como crosta. Fiquei em pé, te vendo de longe, calada e medíocre. 

Cegada pelo sol e pela tua camisa vinho desabotoada, percebi que minha missão era falha. Eu te via e nada fazia. Não havia planejado o que fazer diante de tua figura. Abri meus olhos e desta vez completamente lúcida, me senti envergonhada de minha incompetência íntima. 

Agora, quase acordada e distante de meu sonho, eu guardo em segredo como sofro diante da impotência de me dirigir a ti. 

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Não posso falar de mim.
de minha vazia política
de meus subalternos olhos
sujeitos severamente
ao meu caos cotidiano.

Nada posso dizer
de meus trejeitos indelicados
de minha voz impróspera
e minhas múltiplas faces
de mesmas feições.

Poderei somente calar as infrutíferas
entonações de meu corpo
demasiadamente mínimo e só
coexistir com o que não compreendo
minha covardia frágil
sutilmente revestida
da timidez que me anuncia.

Revelo sempre aos prantos
em meus versos desconhecidos
a minha natureza perversa

de fatalidades humanas.