sábado, 1 de outubro de 2011

Jéssica

Minha rua íngreme e meu corpo bruto eram apenas pretextos que meu inconsciente transpunha para me ocupar antes que eu me desse que meu fim (do outro lado da rua) estava bem próximo.  Não era pânico nem nada  do tipo, era até um estado psicológico bocado agradável, mas aquilo me ocupava muito tempo, muito tempo mesmo, e eu não estou na melhor época para me dar ao luxo de perder tempo pensando em garotas. Sim, o problema (se é que é tudo isso para ser chamado assim) era uma garota. A garota fracionária para ser mais exata. Seis e meia da manhã, minha cara de sono mal lavada, um ônibus barulhento e a bonita entrava. Com as pernas longas, coxas grossas, três quartos de seu corpo. Uma maravilha alta. Era de abismar-se no meu sentido pessoal da palavra, no sentido de entrar (cair de cara) num abismo (que poderiam ser o meio de suas pernas, né?), mas tudo isso só e somente na minha imaginação. Ela me reconhecia por causa dos beijos envergonhados que trocamos uns anos atrás, só que hoje não nos falamos mais. Eu só fico aqui me deliciando na sua boca que é meio grossa, nos seus cabelos que são dois terços loiros, suas mãos que são cinquenta por cento maiores que as minhas... Tudo contado, analisado, milimetricamente observado. O cheiro dela são exatos cinco quintos de flor de baunilha, sua pele um pouco variável, ora vinte e cinco por cento áspera ora cem por sento macia e delicada. Mas a maldita por dentro era uma incógnita, tenho sorte de não ter me apaixonado por um ser (impecável, por sinal) que não possui adentro. Não me apaixonei porque a bonita era perfeita por fora e desprezível por dentro, ouvia músicas ruins, falava sobre coisas ordinárias e ainda se prendia inteiramente nelas. Não tenho certeza se era a idade ou a beleza excessiva. Algo podre a estragava. Mas qualquer um a olhava quando passava. Uma contrassenso irritante, ao mesmo tempo que eu a detestava, a contemplava. Contemplava com olhos fundos e concisos e cada canto de seu corpo fracionado me prendia como um imã. Era maçante e ela estava amordaçada na sua imagem. A garota fracionária, com vinte palmos de altura, cinco oitavos de pele clara e reluzente. Tão precisa, arquitetônica, bem projetada... Tão profunda, bonita e naturalmente apaixonante... Mas, mesmo com toda a beleza concentrada, não tinha nada nos olhos, nem na alma, nem na cabeça. A garota fracionária estava mais para imaginária... 



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