terça-feira, 24 de junho de 2014

Demônios

Consubstancial ao que sinto, percebo meus demônios sobre mim
voando pelas partes escuras do quarto, se rastejando em viscosidades pelo chão
escorrendo em grunhidos falsos pelas paredes.
nada é agradável no que vejo, penso que minha visão alucina
mas além dela eu sinto suas aproximações, mãos velozes me acariciando a nuca
sussurros de infortúnios em infinitas léguas. Arrancam-me! um membro em brusca ferida
e com suas magias negras o colocam de volta em seguida
livram-me das visíveis cicatrizes, mas com gosto recolhem a dor de meus gritos e velam sardônicos meu corpo trêmulo em flagelo
eu vejo, vejo meus demônios na escuridão vagarem
com horror os observo atenta e silenciosa flutuarem sobre em mim em variáveis dimensões
atormentam minhas noites, provam minha carne, habitam meu quarto, meus demônios.
a água da pia pinga rítmica e junto a ela pelo canto dos olhos percebo sem nitidez
um fluxo de sombras reconstruir a forma de um homem
ele me encara e caminha até mim, ajoelha-se ao lado de minha cama ofegando em meu rosto ar quente provindo do abismo
escrevo essas linhas com meus demônios sentados no ombro do homem que me observa de perto, quase repousando seu rosto em meu colchão para ler o meu caderno
assegurando-se que meu terror seja testemunhado em linhas que ninguém acreditará 
sei que o que me protege não é minha cama ou os lençois que me acobertam
mas minha tortura que entretém muito mais meus demônios do que a morte

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Segunda

Anseio acompanhar o teu sussurro, melodia triste que incide em meus ouvidos. Gritar teu nome até que ele arrebente o vigor de minhas cordas vocais, pois tua presença em meu corpo é onipresente e mortal. Estás a todo momento pairado em mim como um suicida louco que declama sua última declaração de amor desesperado, ditando a sina de um destino que renuncio. Não, não pronuncie nada sobre o futuro, sobre o hipotético e irreal... Seria um grande equívoco falar do amanhã, pois não temos chances de um amor duradouro. Eu quero apenas insano, intenso e desvairado como teus olhos boêmios e cheio de desejos libertinos. Eu abdico minha sanidade futura para sentir tua trêmula respiração que me apavora repousada em mim durante a noite, adentrando meu corpo melancolicamente com toda tua sede. Anseio acompanhar tuas mãos que me percorrem, compreender tuas linhas que arriscam conquistar minhas terras, conhecer tua mente confusa, dançar a tua música.  Desejo fazer parte de ti enquanto formos um só e levar de nós a lembrança de um amor infrutífero, porém belo. Recheado de tudo aquilo que me cala: a vontade, a consumação e a paz que segue silenciosa, levando nossos segundos, lavando nossas almas.