sábado, 25 de outubro de 2014

lisergia

Não sei se um dia eu soube 
Somente sei que hoje sei menos 
Do que um dia eu soube 
Sobre quem sou 

Se em algum momento 
Na penumbra de minha vida 
Eu mantive alguma certeza, não sei
Somente sei que hoje absolutamente 
Nada de mim e dela eu sei 

Suponho meu passado 
O vejo abstratamente 
Como se não o tivesse vivido
Temo meu futuro 
Ando em passos incertos 
Pois até em meu andar 
Não há a confiança que me falta 

Não sei quem fui e 
Quem sou 
Inutilmente assombram-se

As sombras de meu amanhã

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Metáfora de sexta

Jamais proferimos palavra alguma sobre o futuro, o presente era nosso alimento e tortura. Éramos aberrações da natureza, ao passo que nos atraíamos, violentamente nos repelíamos e nossos corpos vagavam conturbados nesta dança sobrecarregada de movimentos confusos. Éramos seduzidos pela boca e por ela mesma regurgitados. Gritamos nossas vontades, certos de em algum ponto impreciso, arrebentaríamos nossas cordas vocais e não nos sobrariam vozes que refletissem o adeus já prometido. Erramos ao falar em tempos verbais, eu igualmente erro ao recitar sobre nós, se ainda estás ao meu lado. 

terça-feira, 30 de setembro de 2014

55

Em frente à minha janela existem três casas parecidas com a minha, arriscaria dizer que são exatamente iguais. Em frente à minha janela moram famílias monótonas que não me inspiram interesse algum. Acordei trinta minutos mais cedo e esperei o tempo passar na sacada, pelos sons da minha rua deserta eu sabia qual casa já havia despertado e quem escovava os dentes. Eu conheço a rotina de cada vizinho, embora não saiba seus nomes. É uma intimidade estranha. Acho que tropecei cinco vezes indo ao trabalho, esqueci Goethe em casa e me enchi de tédio ao imaginar como seria o resto do dia assim. Tropecei mais outras cinco voltando, entediada, estressada e cheia de fadiga. Esqueci as chaves de casa e deitei no portão, com a cabeça no meu casaco (eu sempre levo casacos). Peguei no sono esperando alguém aparecer, atordoada acordei e vi pela fresta da janela da casa em frente, alguém me observando. Senti algo terrível, meus vizinhos saberiam também da minha rotina? Acenei para pessoa e ela sumiu. Contei formiguinhas e desde então estou vigilante do lado de fora, tentando observar o que faço. Acho que fiquei entorpecida inúmeras vezes ao me pegar sendo igualmente monótona. 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

201403

Não sou capaz de te esquecer, ainda que te esquecer não faça parte de meus planos. Ainda que meu plano maior não tenha sido promovido por mim, mas pelos meus castigos. Perpétuos na minha imagem refletida distorcidamente em qualquer espelho. Minha não capacidade em te esquecer me torna fraca? Questiono. Libero a fúria de um coração calado pelos olhos lacrimejantes. E, embora eu diga sempre saber do que me habita, não sei como tua morada em mim tornou-se perpétua. Não sou capaz de te esquecer. Mentalizo a possibilidade de teu esquecimento ser parte da lembrança do "amar-me" que meu ser luta violentamente contra. Talvez tua estagnação dentro de mim seja meu verdadeiro cárcere. Lembrar que te amo é aceitar que sou pequena e não mando em mim.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Paradoxo

Ainda que minha particular poesia cante
palavras repetidas de sentimentos ambíguos
ao escrever eu me dispo das vestes
que me embebam dos mares da dor
Nua e repleta de azul, ofereço aos céus meus cânticos
e infortúnios causados pelos meus olhares românticos
Minhas palavras são tão repetidas
quanto os ecos de meus gritos
contraditórias cantam réplicas
dos próprios males
que através delas
renuncio.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Engrenagem

Perco a batalha invisível 
situada sob teu olhar 
a dúvida de teus gestos 
dilacera meus órgãos 
que sangram irregulares
multiplicados pelo meu corpo 
que está violentamente 
condenado pela tua presença
à um perpétuo desassossego

nada digo, nada de mim 
faço ser percebido por ti 
só, aguardo envergonhada
o dia em que tua boca afoita 

enfrentará minha gaguejada fala

sábado, 6 de setembro de 2014

Presságio

Essa noite sonhei. Sei que, inevitavelmente, sonho todas as noites e em todos os sonhos ultrapasso pensamentos peculiares em desconstruções e subúrbios. Mas o que diferencia este sonho dos sonhos que sonho todas as noites, é que eu era capaz de sentir e tocar como sinto e toco desperta. Sonhei com a cidade noturna em que moramos, em sua exata forma, arquitetura e semblante dos céus. Sentia o cheiro em absoluto de tudo que me rodeava, de forma que distinguir meu sonho da realidade só fora possível pela manhã, quando acordei em soluço. 

Passeei pelas ruelas desertas de minha consciência aflita pela tua presença, procurei-te em cada lugar que conheço desta cidade, mas não te encontrei. Estava, naquele momento, agustiada e delirante por estar semi acordada, num sono que não me acolhia por completo. Enquanto carne, revirava meu colchão, enquanto quimera, corria quarteirões. Quando pude finalmente fechar minhas pálpebras cansadas e deveras embriagada, juntei-me ao exército que fui capaz de encontrar em minha criatividade fraca para me acompanhar em tua busca. Cada minuto em tempo real era-me como horas de uma noite infinita. 

E buscar tornou-se minha perversa diversão, tua inalcançável presença e meu inabalável anseio de ti me levaram a becos e beiradas. Entrei em inúmeras casas e igualmente incontável cumprimentei suas famílias, que me desejavam fortuna e sorte, como se acompanhassem participantes de minha busca, minha busca por ti. Meu martírio afincava meus pés ao solo, cada vez mais meus pés agora exaustos pediam por um pequeno momento de trégua e minha intacta esperança não me permitia descanso, queria te encontrar. 

Meu corpo ancorado à calma da cidade, que não estava vazia. Avistava pessoas em todos os bares e como havia bares! Acreditei que te encontraria em um deles, entrei em todos os bares de que tenho conhecimento. Não estavas em nenhuma cadeira, em nenhum copo. E cheio de amargura, o dia começou a surgir. Comecei a acreditar em tua impossível presença e fui desalinhada pelos infortúnios da realidade, ainda que em sonho. Retornando para casa, ri de minha tragédia, nada mais havia a procurar. 

E ainda retornando para casa num silêncio arruinado e regurgito pelas aves e seus estranhos piares de aurora, foi que te vi pela primeira vez na noite deste sonho, diferente de todos os outros. Uma larga avenida separava-nos e atravessá-la em direção ao parque em que estavas era-me uma ideia tão severa e dolorida quanto a ideia de arrancar toda minha pele que me reveste e protege como crosta. Fiquei em pé, te vendo de longe, calada e medíocre. 

Cegada pelo sol e pela tua camisa vinho desabotoada, percebi que minha missão era falha. Eu te via e nada fazia. Não havia planejado o que fazer diante de tua figura. Abri meus olhos e desta vez completamente lúcida, me senti envergonhada de minha incompetência íntima. 

Agora, quase acordada e distante de meu sonho, eu guardo em segredo como sofro diante da impotência de me dirigir a ti. 

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Não posso falar de mim.
de minha vazia política
de meus subalternos olhos
sujeitos severamente
ao meu caos cotidiano.

Nada posso dizer
de meus trejeitos indelicados
de minha voz impróspera
e minhas múltiplas faces
de mesmas feições.

Poderei somente calar as infrutíferas
entonações de meu corpo
demasiadamente mínimo e só
coexistir com o que não compreendo
minha covardia frágil
sutilmente revestida
da timidez que me anuncia.

Revelo sempre aos prantos
em meus versos desconhecidos
a minha natureza perversa

de fatalidades humanas.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Âmago


Queria recordar como isso aconteceu, o instante correto. Entretanto, minhas memórias são como abstrações ensurdecidas por um grito desesperado de minha mente. Não recordo com exatidão, sei que nos últimos meses tenho tido percepções precárias, indícios de uma loucura prematura que talvez esteja me abatendo. Sinto estar vivendo a realidade de forma rasa e distante, como se participasse paralelamente de um contínuo sonho lúcido, com raríssimos momentos de completa clareza. Detesto essa sensação, ainda que muitos possam vir a invejar minha condição, almejar essa minha visão subdividia entre os dois mundos. Detesto essa sensação cuja qual não possuo se quer controle, abro os olhos e meu corpo desorientado treme, uma adrenalina que me assusta percorre e vejo as pessoas cruzarem lentas, vivendo a vida a forma pacata enquanto minha cabeça lateja, de repente não estou mais aqui. Aperto minhas têmporas, alguém discorre um sermão absurdo sobre algo que não entendo, caso pudesse a vir me observar de fora, veria meus olhos exaustos declarando minha vida fatigada, a pessoa que conversa agora comigo não percebe meus olhos, não percebe sua cansativa desumanidade e continua a dialogar em uma linguagem diferente da minha. Meu martírio segue os dias em momentos em que estou em todos os lugares, mas não estou em nenhum. Meu corpo físico está só, ancorado na existência de que não pode fugir, embora minha alma vague sublime por muitos outros recintos, desvinculada de minhas responsabilidades cotidianas. Minha condição me enerva, quisera eu possuir controle, decidir onde estarei, quando estarei. Ser dona desse meu acaso, escolher quem irá transcender minhas barreiras e tocar meu íntimo, mas não é de meu domínio! Pois toda vez que falo, que ajo, que gesticulo, eu não sou eu. Eu sou ninguém, eu sou vaga, estúpida, ínfima e distante. Eu não estou aqui e aterrorizante chego a crer que alguém jamais chegará a me conhecer.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Puída

Eu que sempre muito soube, sempre bem me portei, sempre soube selecionar as palavras de meu vocabulário e tornava os gestos cálidos em gestos tenros. Eu que com o rosto puro enxergava a vida devagar e andava muito por hora com meus pés descalços propondo sentir o chão e a terra participarem de meus caminhos vagos. Eu que nunca tive pressa e sempre convicta do tempo que me rege, do passado que abandono, do presente que me transcende e do futuro que me elege. Eu que sempre enalteci em sonhos esparramados pelos lençóis, que aflorei meu corpo frêmito em milhares de odes, acordei estática e ridiculamente empalecida em uma alma vil. Eu, vil, fétida e minúscula. Compactada em um mísero canto de minha cama, ausente de palavras e substâncias. Eu, inconcreta, lamuriante e desgastada. Sem gosto, sem possuir ar de nada. Eu que tola acreditei ter sido construída por um íntimo singular, intacto e sereno. Acreditei possuir perpetuamente a mesma essência, o mesmo silente sorriso perante a exultação dos dias. Enganada pela minha própria crença, acordei imunda de uma verdade que não me pertencia, descrente do prazer e da euforia, manchada por um sofrimento ordinário.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Catedral


Em meados de um dia ensolarado, sem refúgios pela chuva ou pela neblina, que me protegem dos olhos ladinos na rua, onde cada molécula de meu corpo eu sentia derreter e arder pelos poros da pele, transpirando uma pressa de não sei de quê, pois andava pela rua sem rumo e direção certa. Correndo e não respeitando os semáforos, não tardou para meu fôlego exaurir. E o instante de silêncio entre o inspirar e o expirar de meus pulmões buscando violentamente o ar denso daquela atmosfera febril, foi instante da colisão de meus olhos nos teus passos curtos e sem pressa, ao contrário dos meus. Contrariamente também passos certos em uma direção. Invejei tua certeza e a suavidade que teus sapatos tocavam o chão. Agora dentro de mim aflorava uma quietude que alimentavam meus olhos atentos nos segundos que possuíam tua presença. Logo partirias daquela rua, partirias também meu coração que palpitava forte almejante de ti. Me perguntei quem serias, para onde irias, quis te seguir para onde fostes, desconhecendo meu rumo, mas possuinte de um. Serias meu destino final, mas não tive coragem de mover um músculo, meus olhos continuaram fitando teu rosto, teus olhos cobertos por um par de lentes escuras que te protegiam do sol e perpetuavam a dúvida de minha invisibilidade. Não sabia se me vias, mas sabia que te via e que partias para perto de um cenário onde eu poderia nunca mais o ver novamente. O sol me alardeava, na manhã seguinte minhas bochechas quentes ardiam, assim como meu ódio pessoal por não ter ido junto à ti. Revivi durante semanas este ódio, me rogando pragas e fazendo promessas para quando o visse novamente. Agora parto pelas ruas da cidade com a mesma pressa e sede daquela tarde ensolarada, procurando te cruzar pela aquela mesma rua e a andar conforme teus passos lentos.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

De muito

Sentir é fatal quando não se há palavras.
 "Estou perdida", penso.
Ocorre-me um insight qual eu poderia facilmente chamar de derrame <cômico>, as palavras possuem substituições e sinônimos, mas jamais trazem medidas justas de significado. E de todas as medidas possíveis em meu vocabulário, nenhuma cabe nesse meu sentir inexato, estou engasgada. Meu insight veio violento e me atormenta, me observo de fora e despercebida, me vejo num filme mal feito e clichê, programado para surtir sentimento algum em meus espectadores ausentes. Minhas mãos tremem, não as vejo como antes, parecem não mais serem minhas, suas agilidades e formas se diferem das mãos que conheço, como me apego à estas mãos que não são minhas e seus delicados traços, a forma sutil de percorrer o teclado. Clep, clep, clep, o único som de meu quarto, eu estou enloquecendo. Ah, deus, o que irei fazer se em mim não creio e não tenho mais ao que recorrer? Crio mil e uma teorias sobre minhas mãos que não minhas, juro pelo ar que preenche meus pulmões: estas mãos não são minhas. Estão junto aos meus braços, como normalmente deveriam nesta realidade, porém não são minhas. Seus trejeitos mais delicados e agilidades múltiplas revelam que não pertencem à mim. Onde estão minhas mãos, se não estas são?! E estas são as mãos que me levam às palavras que pronuncio, onde divagam as palavras de minhas mãos verdadeiras e teriam estas as respostas de meus socorros? Sentir é fatal quando não se há palavras, me perco em minha inexatidão, enlouqueço pela minha própria língua.  

terça-feira, 24 de junho de 2014

Demônios

Consubstancial ao que sinto, percebo meus demônios sobre mim
voando pelas partes escuras do quarto, se rastejando em viscosidades pelo chão
escorrendo em grunhidos falsos pelas paredes.
nada é agradável no que vejo, penso que minha visão alucina
mas além dela eu sinto suas aproximações, mãos velozes me acariciando a nuca
sussurros de infortúnios em infinitas léguas. Arrancam-me! um membro em brusca ferida
e com suas magias negras o colocam de volta em seguida
livram-me das visíveis cicatrizes, mas com gosto recolhem a dor de meus gritos e velam sardônicos meu corpo trêmulo em flagelo
eu vejo, vejo meus demônios na escuridão vagarem
com horror os observo atenta e silenciosa flutuarem sobre em mim em variáveis dimensões
atormentam minhas noites, provam minha carne, habitam meu quarto, meus demônios.
a água da pia pinga rítmica e junto a ela pelo canto dos olhos percebo sem nitidez
um fluxo de sombras reconstruir a forma de um homem
ele me encara e caminha até mim, ajoelha-se ao lado de minha cama ofegando em meu rosto ar quente provindo do abismo
escrevo essas linhas com meus demônios sentados no ombro do homem que me observa de perto, quase repousando seu rosto em meu colchão para ler o meu caderno
assegurando-se que meu terror seja testemunhado em linhas que ninguém acreditará 
sei que o que me protege não é minha cama ou os lençois que me acobertam
mas minha tortura que entretém muito mais meus demônios do que a morte

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Segunda

Anseio acompanhar o teu sussurro, melodia triste que incide em meus ouvidos. Gritar teu nome até que ele arrebente o vigor de minhas cordas vocais, pois tua presença em meu corpo é onipresente e mortal. Estás a todo momento pairado em mim como um suicida louco que declama sua última declaração de amor desesperado, ditando a sina de um destino que renuncio. Não, não pronuncie nada sobre o futuro, sobre o hipotético e irreal... Seria um grande equívoco falar do amanhã, pois não temos chances de um amor duradouro. Eu quero apenas insano, intenso e desvairado como teus olhos boêmios e cheio de desejos libertinos. Eu abdico minha sanidade futura para sentir tua trêmula respiração que me apavora repousada em mim durante a noite, adentrando meu corpo melancolicamente com toda tua sede. Anseio acompanhar tuas mãos que me percorrem, compreender tuas linhas que arriscam conquistar minhas terras, conhecer tua mente confusa, dançar a tua música.  Desejo fazer parte de ti enquanto formos um só e levar de nós a lembrança de um amor infrutífero, porém belo. Recheado de tudo aquilo que me cala: a vontade, a consumação e a paz que segue silenciosa, levando nossos segundos, lavando nossas almas. 

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Danielle



Poucos irão prever o universo que divaga em teu olhar, poucos tetearão o que há além da tua densa pálida carne ou irão decifrar a eternidade contida em tua imagem.  Tua alma invisível, escondida dos que vivem na superfície da vida, vela tua biografia, teu labirinto íntimo confessional.  Sinto pesar pelos que cruzam por ti sem notar, os que abandonam a tua frágil presença febril.  Mas os poucos que provam da tua eloquência sofrem dessa pequena doença onde o viver sem ti se torna o maior dos desinteresses humanos. Como pronunciar a indeterminância de Danielle, que atroz e violenta varia a todo momento?  Onde busco a linguagem que figure o existir ao teu lado?  Não, eu não me permito mais do que esse mero ensaio, curto regurgito de teu espectro. Eu não preciso mais do que isso, pois te retrato todos os dias em cada livro que leio, filme que assisto, em cada arte que admiro e utopicamente sinto como se toda história arquitetasse teu nome. És o meu fascínio cotidiano e tua sede poética do mundo rasga essa folha de papel pela metade... te narrar é paradoxal quando tu mesma já é a própria fábula de si.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Nulo.

Sou vazia como esta rua noturna, às vezes me confundo com meus passos lentos sincronizados contra os asfalto, acreditando que possivelmente outro par de passos está atrás de mim a me seguir, paro e silencio. E então percebo aterrorizada que meu sons são monossilábicos, estou só junto com infinitos casais de postes que me zombam. As árvores cruéis riem de mim em pequenos uivos junto ao vento: eu parto sozinha por decisão própria, repelindo os que de mim tentam se aproximar. E em minha maquiavélica ousadia ainda me indago os motivos de estar voltando para casa desacompanhada, buscando em olhares súbitos a minha volta sinal de existência humana que me resgate e arranque de mim qualquer pronúncia, eu não temeria a aproximação de algum estranho nesta rua. Porém estou só, volto para casa sozinha em silêncio, escoltada por esta natureza urbana intacta que sabe de mim e não sente pena. Afinal, por que haveriam de sentir pena de mim os grilos, sapos, folhas secas e cimento da calçada? Venho só e só eu permaneço em meu desassossego melancólico.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Alecrim

De tua pele, o meu desejo!
em últimos suspiros até que exaure
e toda a minha ânsia de ti eu mate

Do teu ser, o meu deslumbre!
e todos os meus olhares em ti repouso
sem que jamais parta o meu fascínio

De nós com sede eu me visto
e faminta a saudade se alimenta
e transbordo-me e transbordo-me
pois clamo teu nome em gritos secretos
e não há o que cale meu te querer perpétuo

sábado, 3 de maio de 2014

De serpente, desordeno
Eloquente
transcendente em delírios
aveludada de frieza e perversão
de minha garganta fervente, impaciente
por novas mentes.

Apeteço-me destes semáforos piscantes,
sapateando no caos que minha vida se tornara
os cigarros derretendo em minhas mãos
e ele
me ligou
sete vezes
somente hoje.

Meus saltos há muito difundiram com asfalto
Fazendo música à ouvidos estrangeiros
Vivo acompanhada deste Céu desleal
mas qualquer um que me vê passando,
sabe que venho sozinha.

Maculada

Quero-te como um bem amante amigo, como tu, eu, e todos os meus poemas gritam para que o mundo também saiba, mas
Não permites
Com tua muda razão, me agrides
E deixa à esmo e ausente desenho do amor perfeito,
Por serem tuas portas grandes ou pequenas demais afastas
Meu corpo, que na idealização do imaculado, tanto insistes
Me explica, meu bem, teu inquieto peito. Me explica tuas lágrimas?

Nossos olhos boêmios atirados pela lenha da casa, aguardaram o entardecer orados das palavras mais belas possíveis e vimos
Surgir as manhãs que eu tanto canto e tu veneras!
[Me perpassa o sangue mais quente que rasga e grita o tempo inteiro pois tu és sim a culpa de toda a minha incompreensão que vai e volta com um gosto amargo na garganta me lembrando um porre ruim que tomei em teu nome]
E no vão da porta que me encontro, olho para trás como último resgate
Do caos e contradições de teus discursos e olhares
Que de tal forma absurda ainda reconheço como lar
Careces de meu colo quente, minhas palavras doces e todo o mais demorar carinho que precisar
Sei pois exiges que eu vá e não me deixas partir
Tua loucura molda essa paixão doentia
[Quase ininterrupta que rouba noites e noites, cartas e cartas e manhãs e cigarros e manchas e conversas e meus deus, onde estará a paz do amor que dito?!]
Mas olho para trás com esperança do último resgate
Antes que tua loucura me afaste de ti,
Pois não sou a mulher inabalável, meu bem.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Dentro de minha pele macia
tua presença varia
meu batimento e
meu termostato:
és meu segredo subcutâneo.

Arcano

Sou mais segura em meus pensamentos íntimos
do que conquistada pelos teus olhos famintos,
ainda que eu saiba de minhas personalidades múltiplas
é em mim meu melhor abrigo do que em tua pálida pele
Sólida tal certeza, permaneço possuída do teu hálito fresco
embebida de teu suor fraquejo, não sei dizer-te não
violentos contra mim os meus castigos
meu próprio lar procura à ti, masmorra, o acalento
Desvairo em delírios, tremo e não posso dormir
o que poderei fazer, se meu próprio corpo
de ti todo tempo foge
e à ti todo tempo procura?

domingo, 6 de abril de 2014

Cura

Quando no particular de minha mente
eu me encontrar revestida somente de tua sede
saberei que minha fuga foi imparcial
e que tal como este caos corporal
me terás presa à ti
e farás tua caça.

Roubarás meus versos, roubarás minha calma
tudo roubarás de mim até que eu seja casta
estonteante e deturpados meus sentidos
hei de me sentir restabelecida
hei de me sentir completa
após por ti for devorada
e devolvida ao mundo
como a única que
do teu amor
sobreviveu.
Quanto tempo dura um momento? e
quanto tempo é necessário para que um momento seja eternamente aquecido na lembrança?

Quantos milésimos de segundo separam a vontade do beijo e quantos beijos satisfazem um desejo?

terça-feira, 1 de abril de 2014

"Gosto de seus olhos e como me perco na sua escuridão. Escuridão infinita e sedutora, que prende-me instintivamente junto ao gracejo de palavras sussurradas ao ouvido. Teço a tênue linha do corpo e da alma, que segue dos toques de suas mãos até os meus mais profundo pensamentos. Nas entranhas de teus lábios, me consomem as neuroses e displicências, volto a essência: sou o ser, o amar, o lúdico, sou o que ainda não pode ser transitado."

Etéreos

Meu sossego é dormir em teu peito,
onde fico a cochilar no Vai e Vem da tua respiração
Suspiras em uníssono tantos sonhos quais percebo
Ao olhar para o teu cenho, que franze toda vida
Você faz barulhos dormindo,
enquanto eu fico a observar que teus lençóis
são nosso lar.
Se tento sair de teus braços, não me deixas
Me apertas para mais perto, enfiando meu rostinho
em teus cabelos.
Teus dedos percorrendo o caminho de minhas costas
Enquanto, em passo lento, o dia se desfaz.

Por instantes posso perceber que ao finalmente adormecer
De dois tornamo-nos um, eternos azuis desmanchados em descanso
após amarmo-nos por inteiro.
Me encanto das coisas breves
porém do eterno sobrevivo
Do efêmero, retiro coisas leves
e o infinito me tem cativo

deslumbrariam-me tardes remotas
caso eu me desfizesse de tal dúvida:
preenche-me verdadeiramente
o que é célere
ou infindável?

segunda-feira, 31 de março de 2014

Entre as diversas alianças que fiz contigo, me perdi
sofri, sofri na ausência
na onipotência
no teu roubo de mim
Respeito as nuvens vagarosas que me segredam
guardiãs da insaciável saudade
de tua carne
aguardam-me dias de metamorfose?
No véu imerso em ondas de lágrimas
permito-me sofrer perante minha impotência
em não amar-te mais