segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Servidão

Oh, queima aqui, oh
No início da garganta
E formiga a boca
Sofro de vontade de falar
Mas não consigo
Falho, aguo, grito!
Me rasgo
Das unhas à carne
Sedenta
Mas pobre, coitada
Mantenho-me em cativeiro
Dentro de mim
Pois não posso confessar
Meu pecado
Meu pecado!
Pequei, pequei!
Disse que não o faria
Mas
inevitavelmente
Eu morro de ciúmes de você

Desditos

E por medo de sofrer
Eu me nego ao mundo
E por dor
(de sei lá o que)
fico vagando-me
e seguindo os alagados
bebendo do clandestino líquido
escorrido de seus sorrisos
embreados de suor e
calúnias!
No fundo, sei que isso é amor
Mas percebo, peso, calo
Pois o arame farpado
Do meu interior
Que dói e me esvazia
Junto a vozinha estridente
sequestraram da minha garganta
a amada e heroica aguardente
fazendo escândalo
e causando tumulto
num oceano de calmaria
e pacífico de confins
convertendo-me em anedota
pobre de palavras
e rica em desgraças

domingo, 27 de novembro de 2011

Revanche


E percebo
O inequívoco e talvez tênue
Pesar
De que ao acordar
Minha ressaca por não ter bebido
É ainda maior
E eu comigo
Eu, meu abrigo
Eu, meu inimigo
Espetáculo tormentoso dos meus erros
Que são tantos, céus...
Que me perdoem aqueles que fiz sofrer
Pelo meu interior gelado
Calado
Mas temo
O dia em que tudo voltará
Em maré fingida de mansa
Que me afogará

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Exposto ao esmo

Eu tenho jeitinho
Uma volição que não se mata
Um segredo bem velado
Pois vejo cores,
E quero carinhos
Mas arrisco em dizer
Que ninguém sabe...
Claro que gosto do podre
Do ardente, da luxúria
Do caos, do marasmo
Do Cão, do bravo
Mas eu gosto também de um afago
Um beijinho da orelha
Um sussurro de letras
Eu te amo
Te quiero, corazón, be mine
Acordar com dengo
A vontade de suspirar
E o suspiro
Ai, eu não queria contar...
Mas vacilo nesse meu lado sinistro
É verdade, é cruel, é lascivo
Do jeito devorador da alma
Explorador e invadindo o âmago amargo
Não faz sentido
Quando não tem-se ego
Quer dizer
Egomaníaca, sim claro com certeza
Em ventura, eu me digo
Egomaníaca depressiva e depreciativa
E em minha depressão simbólica
Atada em silêncios de meiguice dissimulada
Eu digo que persisto no amor
Mesmo ele nunca ter me encontrado!
(Ora ora, menina ingênua
O amor não te encontra
Você encontra o amor)
Mas não nessa ilha, capitão!
Aqui quem se esconde sou eu
Perseguida pelo oportuno medo
De ele me encontrar
E contar
Para algum par de olhos
Que eu gosto de mimo. 

domingo, 20 de novembro de 2011

Pulverize-se

Foi um afronto, uma guerra
Minha negação, tua vitória
Acredite, venceste
Ao não estar comigo
Acredite,
Eu não te faria feliz.
Mas sobraram-me tuas cartas
A lembrança de uma tarde clareada
Minto
Minha memória nunca foi boa
É que eu não te amei... 

Memórias de quinta

As coisas mudam, sabe. É, as coisas mudam. E melhor do que mudam, ela se transformam, se reconstituem, se adaptam aos novos sorrisos e percepções. Um convertimento de novas ideias, de novos parâmetros de contemplar.  Eu não te via dessa forma, te via como um objeto inerte e inalcançável. Algo pertencente somente às minhas idealizações e vontades, mas agora você está aí, no outro banco do carro, com uma cara lenta e soltando fumaça regurgita pro céu. É difícil entender, porque mais do que isso, sinto que você me teme. Percebo isso nesse teu olhar acanhado e até quando você coça a barba com o cenho franzido, como se tentasse adivinhar o que eu estou pensando, que plano perverso estou tramando contra você. Mas não é isso não, te olho com júbilo escondido nos olhos, não quero te mostrar que estou entregue, que estou exasperada de felicidade, afinal, quem mais teme aqui sou eu. Temo perder algo que quis por muito tempo. Eu já sei qual é a sensação de te perder, pois te quis  e, sem que nenhum de nós soubesse,  te perdi inúmeras vezes. Te perdi pois me escondia, me atrelava na minha timidez, nos meus silêncios. Me fiz insuportável, como você disse. Só que eu era a mesma, sempre fui a mesma. Eu te contemplava de tal forma que ao te ver falhei, e falhei comigo. Mas o tempo passou e o outono te trouxe de volta, agora você está mais perto do que nunca. Aí do outro lado do carro, segurando minha mão firme, como se não quisesse me perder. Isso é estranho. A vida parece zombar de mim. Mas não importa muito agora, o que importa é te ver terminar esse cigarro interminável e me aninhar no teu colo de novo, te puxar pela gola da camisa, te tascar alguns beijos no queixo, no rosto, na testa e na boca. Sentir cócegas até gritar igual a um bebê, sofrendo de satisfação. Essa tarde poderia ser eterna, com esse maldito céu azul teimando em dizer que a vida ainda vale um pouco a pena, essa brisa densa batendo o rosto e teus beijos insanos, nosso confronto de bocas... 

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O poeta X


Peregrina pelo ar
Bailando a valsinha triste,
de teus lábios
vai embora,
que resta agora?
Se não os meus
Beijar-te os teus
Se não as minhas
Entre as tuas.

E a fumaça me agarra
Me prende e me puxa
Pros teus olhos mansos
Levar-me ao engano
De me dar-te por completo
Não há o que fazer
Quanto teu corpo
É a única saída

E me atenho, me entrego
Me puxo, me esfrego
Sem medo, sem dano
Me sabotando em segredos
Pois não te conto
O que na verdade penso

Penso no tempo perdido,
Às vezes, não minto
Só que penso muito mais
No nosso tempo que ainda está por vir
Porque temos muito tempo
Por isso me acanho
Me tens ganho
Nos teus braços
Milhares de laços
Me aninho

Sucessão

Que tem nesta caixa,
Velada entre segredos 
E vergonhas

Descubro alianças,
De amores deteriorados
Por mim abandonados

E tantas cartas, e cartas
Céus, cartas!
Letras ilegíveis
Letras esquecíveis
De nomes que já não lembro mais

Há um pingente de família,
Não da minha.
Há flores secas, desbotadas
Que posso fazer,
Jamais gostei das flores dele

Há a camisa dela,
Com o meu cheiro.
Um porta retrato
Com sorrisos, que hoje
Me parecem falsos.

Há também a tristeza
De amores não correspondidos
Uma camisa rasgada
Um tênis sujo
E uns sete diários.

Há uma corrente
Do cara das borboletas amarelas
Nunca mais vi elas
Eu boba acreditando
Em suas mil promessas...

Há passagens de ônibus
E embalagens velhas de garrafas
Vazias.

Uma concha!
Mas sem surpresas do oceano dentro
Seu dono morreu

Um livro,
Manchado de sangue
Ela era louca,
Por sorte escapei.

Há um cartaz espalhafatoso
Com ideias contaminadas por alucinógenos
Foi por muito pouco
Que não fugi pra Bahia
Fazer essa droga dar certo.

Uma estrela do mar?
Que porra é essa?
Não lembro...
Ah,
Ah...
(...)

Um ursinho Carmurro
Com cheiro de bebê e lavanda
Dormi muito tempo com ele,
Esperando que ela me perdoasse.

Ingressos de cinema,
De ópera,
De shows que não cheguei a ir.

Uma chave de apartamento
Será que ainda abre?
Seria engraçado
Se eu o pegasse de samba canção
Sapateando pelo quarto.

Há também as cartas
Que eu não enviei
Por ignorância
Por falha
Não me arrependo, não...
Só é estranho
Enterrar meu passado
Quando, na verdade,
Ele não parece estar morto.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Fatiga

Eu quis ser simples
E acabei enjoando de mim
Mudei, reverti-me em avessos
Fui contra os verbos
Contra pessoas
E esses olhares dissimulados
Quis ser diferente
Falar ao contrário
Escrever sem sentido
Namorar comigo
E, sem querer, me abortei
Percebi de fato
Que olhar para o espelho
Avistava o inimigo
E estando presa em mim
Nada havia a se fazer
Além de me esvaziar.

Brusco

E agora teu silêncio me agride,
Além do silêncio,
O preço que pesa o passado
E deitar, revirar, me perder na cama
Me perder nessas injúrias de pensamentos
E você, apertando o peito
Nesse meu paradoxo
De querer te ter
E não de te querer

Beber do cálice do que era
E não mais é
Sem explicação
Tu que me fez cócegas,
Pra me ver sorrir
Que me beijava a testa,
Pra me cuidar.
Vai embora e não avisa
Nem me avista
previsão de volta.

Se não me dei a ti?
Dei-me, tu sabes
Tu ouviu, tu sentiu
Ouviu calado, atento
Meus suspiros,
meus gemidos
Meus eu te amos
Tu sentiu, minha boca,
meu ventre,
Minha felicidade
Em tuas mãos.

Mas não, recebo em troca
Esse desdém
Essa frieza impetuosa
Me pergunto o motivo,
A resposta
Dessa tua súbita
Não vontade de mim.
E, aos prantos,
Me abandona
Com a minha regurgita memória
Me acostumei à ti
E tu, sem dó
Me ignora.

(Meu para ela e para ele e minhas infinidades de pronomes)

Depressa

Ei, meu bem, que dia é hoje?
Eu não sei
Tá com cara de terça-feira
Que tal a gente se mandar daqui?
Criar um botequim
Vamos ajeitar nossas coisas
Encher a mochila
E a cara na estrada
Ir de dedo até o México
Negociar umas drogas
Ein, meu bem, que achas?
Afinal, que dia é,
Não sei, não importa
Vem comigo, faz tuas malas
Passo aí às onze pra gente ir embora


Aí você não ri, você chora

“Acho que certas pessoas nasceram para serem amigas”
e me faz, me faz sorrir
prevalece em mim
fortuna minha
tuas mãozinhas hábeis
levam minha solitude embora

é mais do que possível
me arrancar uma dança
nos meus passos empoeirados
nosso bolero de amantes
amantes amigos
digo disso com ar no peito
feliz na alma!

Contigo tudo passa
Tudo volta também
Aquela sensação de criança
Bambolê, carrossel e balanço

Eu não sou fraca
Só estou um pouco perdida
Nas minhas entrelinhas
E minhas queixas
De dores inexistentes

Mas não tô bem, não
vem aqui,
Me abraça,
Que passa.

Eu poderia ser diferente

Eu não mato a saudade
A saudade me mata
Eu que sou tão normal...
Tão infantil e linear
Eu que tenho um rosto imemorável
Um íntimo calado
Eu que tenho mil dissimulações
Não consigo ler tuas linhas
Por causa dessa dor que nunca senti
De não ter um amor que não tive

Há algo mais infeliz que isso?
Minha mente revirada em bordel
Minhas simplicidades
Tentando entender tua complexidade
Teu emaranhado confuso
Tua infidelidade contigo
Deslealdade íntima

Namoro com minha desgraça
E me amarguro com facilidade
É uma lástima pessoal irreversível
Porém o pouco tempo que passo contigo
Faz valer
Meu gênio fácil acaba por consentir
Tua morada decadente
De princípios miseráveis
No âmago da minha mente

Porque, por mais absurdo
É você quem me faz feliz.
E de repente,
A saudade chega
Sem bater na porta.

Monotonia

Meu nome é distância
Distância de mim,
esquivando de ti
Distância e fuga fingida
Não me entrego, tão pouco nego
Sinto medo
É, sinto medo.

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Elas são loucas,
Completa
Mente
Loucas.
Insanas e piradas
Histéricas descabeladas
Mas, loucamente apaixonadas.
Por ti, por ele, para ele
Não dá para escrever sobre isso.

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Se ele tivesse a beijado
Não teria a escrito
Mas, se ele tivesse a amado
Seu sorriso seria perpetuado.

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No estrondo do silêncio
Eu paro e penso
Eu odeio tudo que escrevo.

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E bebe, mas bebe, bebe tanto
Que quanto me beija,
Fico de porre.