domingo, 25 de dezembro de 2011

O poeta XII

Gosto, e como gosto de nosso exagero
mantendo-me aqui em meu cativeiro
será que está ao invisível olhar
ou tem o sono que me rouba?

Sangue perdura, perfura
abre aspas e palpita o peito
Eu o amo como está o céu a amar
seu oposto profundo e enigmo, mar

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Guarde



Que esse tal senhor te guarde,
Pois não há mais quem o faça
Que o prazer te satisfaça
Para que sobre tempo e espaço
Para o sempre bem querer amor
Não deixes à deriva palavras ainda não ditas
Conserves a saudade,
Para que ninguém nunca te amargure
Ninguém nunca te estufe
Ninguém nunca tome de ti
O tempo suficiente.
Queira sempre mais
Não abandones o canto,
Roube das tardes o esmero
Não apague delas o encanto
Sinta na carne o seio sincero
Mas sempre,
Sempre ame
Apenas uma.
A única. 

sábado, 17 de dezembro de 2011

Só quem prova

Não queria despontar o céu,
Mas estou fugindo ao mar
Três nós bem laçados
Para no azul me deixar
Leve levar

E sentei na beira,
Regurgitei todas aquelas palavras
Aglomeradas que em extermínios
De dentro para fora,
Me envenenaram com a verdade

Bruta, insossa
Estava sei lá em que odes
Preparando a destruição
Eu só quis compreender
Porque é que as linhas
Teimavam e teimam
Em me enlouquecer

Saí, acendi, traguei
Invejei o pedreiro da obra
Descalço, sem blusa nesse sol
E por fora,
uma grossa camada de pele queimada
por quantas vezes quis me ver assim
queimada por fora
satisfeita por dentro
mas não,
fui parida ao avesso

Andei mais um pouco e senti frio
Frio de ar falsificado, burguês
Não queria aquilo, não queria
E sempre não querendo, vou indo embora
E só indo embora é que a gente percebe
Que não é de ninguém

Eu olhei para o céu
E vi um deus sem auto estima
Desmerecendo sentimentos
Como quem brinca de dados

Eu fui além,
Me trouxe o limite
Como de quem aguarda um enfermo
Partir logo e deixar a dor
Só para quem consegue aguentar

Ah, lábio ouriço
Lábios
Os mordo todos
Na vontade
Na perspicácia
Na lembrança
Entrego-me!


Aquilo era sangue
Era voo
Era meu orgulho de ave rapina
Meu orgulho
Em bater o pé
Em querer ser livre

Mas
mAS
MaS
Eu desapontei o céu
Atrofiei minhas asas
Não sou mais alada
Não deixei de ser
Quem fui,
Quem sou,
Quem eternamente serei
Mas abri espaço
Para o novo canto
De desespero
O canto do amor
E da incerteza

No aguardo do passo,
do entendimento
e do avanço do medo,
ladino

Somei-me
Reparti-me

No vão da calçada, alpinistas
No choro da estrada,
Os carros e motocas
Esperando a sua sina
Noite afora
E fechar os olhos,
Só para sentir na pele
Não há quem negue
Que não há nada igual
Sentir o cheiro do farol aceso
E o barulho das nuvens colidindo

O estrondo de flores desabrochando
O aroma dos sapatos ecoando alto
A beleza de quem sai cedo e volta tarde
Mas se encontra no meio do caminho

Eu consegui o limite
E ele me rabisca inteira
Me marca

E não me deixa nunca parar
Pois as linhas continuam a teimar
E não sei porque teimam
Se sempre conseguem.




quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Séquito

Eu me vi escapando,
E depressa me vi caindo,
Entre aqueles bosques e aquelas juras
vi-me presa em sossegos debelados
Eu senti o contorno do abismo
Agarrar-me o calcanhar,
E sussurrar a escória
Extraída do fio da memória
Das vidraças da alma censurada
A esse suplício interminável,
Da explicação
A hipótese certa do vergão da carne,
Que mostrasse as razões...
Da minha desgraça.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Quem sabe


Chega disso,
Chega dessa meu porre sonâmbulo
Essa minha neurose besta
Essa perturbação inquieta
Cansei dos meus poemas iguais,
Dessas ideias banais,
- E dessas rimas que vem por acaso –
Deixa de querer ser grande, menina
Deixa de achar
Que teu coração pode ser único
Que o amor prevalece
Que a essência da alma tão-só cresce
Não existe privilégio na vida,
Pois o sol não elege a quem quer flamejar.
O desencontro na rua
Não acontece pelo certo
E sim pela desarmonia
Da porventura,
Não adianta, menina
Desiluda-se
Desapegue-se
Quem sabe os passos
Assim sejam mais bem dados,
Quem sabe os quilômetros
Mais alcançados... 

sábado, 10 de dezembro de 2011

Marinhos


Perdi-o
a felicidade,
mas deixei nós frouxos
E a garganta seca
Pronta para a volta.
Contudo
A maré baixou,
E o céu chorou.
Mas ele,
Ele não voltou...

Minhas lamentações e
Promessas despedaçadas
Cacos em mãos,
E meu coração
Desnudando
O azul,
Em degrade
Pois foi-se as cores,
E a sensações
Que todos os dias,
Me trazias

Aguardo teu perdão,
Tanto quanto
Aguardaria nuvens brancas
Depois da tempestade
Ou, até mesmo
Chuva de verão
No fim de tarde.

Queria entender,
Porque meu desapego
Não funciona contigo,
Porque será
Que tu tomas meus sonhos
Como amparo.

Mas depois de quatro estações
Sempre há uma esperança de volta,
Uma toma de olhares fuzilados
Atrás da tua música
Em cima do palco
Me mostrando meus erros
Como golpes certeiros

Me fazendo entender
que a tua volta
depende da minha morada
dentro de ti.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O poeta XI

Subjugo meu ser ao foco
Do horizonte por vir
Nunca gostei desta expressão
Mas não há nada que eu possa fazer
Quando tudo que resta,
É a ti me doar

E bisbilhoto minhas gavetas
Que palpita, borbulha
Me grita,
Eu te amo!

Te amo além de gramáticas
E amo atônita, querendo mais
Devotando
Íntimo e corpo
E duas vezes,
O eterno
Amarei-te também

Nos resta, mas não por fim
O infinito
Nos resta o céu,
Nos resta o mar
E se não nos bastar o azul
Também o dourado de fim de tarde
O laranja das manhãs
E todas as alucinações
Onipotentes
E dispersantes

Mas estigmatizo o lírico
Não por medo, não por falha
Mas clave esfinge
Desse teus olhos enigmáticos
Ferozes e famintos
De quaisquer outros sentidos

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Longe de ser

e levanta
e arranca
a casca dura
toda manhã
da renovação
da concepção
um intermeio
da criação
do ser e
de novas moradas
e pensa
desestabiliza
pois
eu nunca mais serei a mesma
eu nunca mais serei
eu nunca mais
eu nunca
eu nunca mais serei a mesma

sábado, 3 de dezembro de 2011

Plumárias


Pra quem distorce o lúdico,
nunca é fácil abster-se do real.  

Para quem vaga entre lacunas,
Acaba por medir distensões
entre sorrisos e intenções.

E para nós, alienados
Suicidas, descabelados
acordados por dias e noites
Com sonhos de ópio
E íntimos de sangue
Nos resta o ordinário,
O coloquial,
O banal.

Fruto do sol

A transgressão lenta
A melancolia dissipativa
São todas dores
Da mesma fonte

Isso não está certo

Minto-me
Nego-me
Desdenho-me ao
Passo
De prantos
Joviais.
Ao antagônico dos acasos
E antônimos de
Denotativos 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Ponto



Eu prefiro discordar
Do que sentir todos
Os perfumes das flores

Elas descolorem
Frente aos meus olhos
E murcham
Entre minhas pernas\\\\

Apetecendo embebidas
Com os olhos lamentados
Triste da beleza que guardam

Eu que sinto
Eu que não sei falar
Pertenço ao lugar
Quadrangular\\\\

Dentro de sete mil e uma salas
Labirintas
E avessas
Coloridas
Com águas frescas

Refresco-me navegando
Nos meus segredos
E romances trapaceiros
Insistindo em contar meus cuidados
Em entrelinhas
Que olhos bons não enxergarão

É a benevolência dos malditos
Não ter motivos reais para rir
Pois em cada segurança
Nasce um murro certeiro
No meio
Da face

E cai
A máscara
De elástico frouxo
Pois no fundo,
Somos todos assim,
Não?

Com os espinhos
Embaixo da carne
Pingando veneno
No canto do lábio
E olhos com fundos
Que não choram

Chorem, meu bem
Chorem, eu imploro
Eu necessito
Minhas lágrimas
Pois tudo aqui dentro
Anda gritando
Implorando
Por algum sinal
De real força

Eu sou fraca
Fraquinha
Despetalada
Eu sou azul
Eu sou
O caminho
Eterno
Ao vento
Sul

Eu sou o luto frio
Eu sou a falta de palavras
Eu sou
Eu deixo de ser
Pois tudo que eu quero
É ser

E ser minha,
Hoje já não basta
Pois eu prefiro discordar
Da voz profana
A realeza do meu ser
A voz que me governa
Que me manda
A voz que eu obedeço
A que me faz serva

Ser minha foi um dia
Minha dávida,
Meu segredo
Minha maior fortuna
E hoje é minha miséria\\\\\
Eu quero é ser tua.

Só que toda vez que tento
E tento
E cavo um buraco
(podre)
E vou cavando fundo
Com minhas unhas sevas
E vou indo
Quase me afogando
Você me expulsa
Com sua desconfiança declarada