sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Mini conto #2

Ela tinha o hábito ruim de querer ir para a cama no primeiro encontro. É que gostava de ser impudica, não tinha vergonha. Mas após ter saído com um colega de trabalho de sua mãe e ficado mal falada na clínica da família, Cecília foi orientada a participar de grupos de ajuda psicológica. Foi lá que aprendeu a ser neurótica. Depois de tantos e tantos novos colegas alucinados e cheios de tiques e toques, enlouqueceu também. Sua neurose virou cores, tinha cores para todos os encontros. O primeiro deveria ser sempre  essencialmente um vestido preto, não muito curto. Cada cômodo de sua casa fora reformado e repintado com uma cor diferente, amestrada com seus estudos de penetração de emoções. O problema do sexo também fora resolvido, descobriu - e ficou abismada com a quantidade de vezes que foi capaz de burlar essa regra - que só conseguia transar com as unhas pintadas de vermelho. Era assim que era percebia com mais nitidez a avidez de seus movimentos devassos na cama, nos arranhões nas costas que sempre gostaram de observar. Com vermelhos nas mãos ela se tornava uma mulher mais dotada, mais... Mulher. Então, finalmente, Cecília teve paz. Trocara o hábito ruim por vários outros bons, os adequados e aceitos perante o que pode ser julgado como mulher correta. Todos ficaram felizes; menos o seu futuro marido, que tinha que esperar meia hora antes do sexo imprevisto, enquanto Cecília ficava lá formosa pintando suas unhetes e ele ficava lá implorando para o tesão não acabar.

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