sábado, 1 de outubro de 2011

Interno


Ela caiu. Com o focinho no chão. O impacto desmesurado emaranhou suas idéias, de repente tudo mudou e ela esqueceu-se de quem era. Estava perdida no seu próprio ser que não era. Andava por aí, cambaleante procurando pretextos e sentidos que pudessem tornar-se a resposta da única pergunta que ela se fazia incessantemente todos as manhãs: Por quê?

Procurou no bolso, na esquina, nas bocas, nas fodas, nos livros, nos sons, nas cores e no tempo. De tudo o que mais namorava era o tempo, ele estava com ela em todos os momentos, e quando se perdia era só recordar quanto tempo faltava para ela sentir qualquer coisa, e entrava em seu devaneio. Ele nunca a deixava, e consequentemente ela sempre o abraçava. Abraçava de todas as formas imagináveis. Seu tempo era devotado ao próprio tempo.

Tornando o resto escasso e improfícuo.

Questionava-se sempre, como seria sentir. Será que sentiria por dentro até penetrar entre sua pele de espinhos? Ou será que apenas sentiria algo que não fosse palpável ou visível. Algo que ela apenas sentiria e se realizaria com todos os sorrisos que guardara. Eu sou apenas um nada que espera por um tudo, eu poderia ir até o tudo. E não esperar que o tudo viesse até mim.

Tudo. Que tudo? Se sou nada, é provável que exista um tudo. Como posso ser um nada, eu me toco, eu me sinto. Eu sou algo. Que algo? Algo que não se sente, algo que não se toca.

Como ela odiava o céu. Como ela odiava azul. Como ela odiava. Fugia e fugia e o encontrava quando o tempo a perdia. Tragava enfadada. Estava cansada de nada. Cansada de si. Cansada do tempo. Cansada de tudo. Apenas queria surpreender-se.

Por quê?





Porque uma cereja não cabe no meu peito. Porque você sente cócegas no céu da boca, e não te perguntam se são por causa das estrelas. Porque ninguém sabe que seus orgasmos são falsos, que seu salto quebrou, que sua meia calça rasgou. Que seu peixe se afogou. Porque o batom borrou, porque você olhou para o céu e as estrelas não encontrou. Olhou para baixo e disse baixinho "ops, engoli". E a cócega voltou! Porque riem de você quando você conta nos dedos. Porque as flores da sua saia de repente murcharam. Porque você não chegou ao fim do arco-íris e deixou a tampa do pote com o azul do céu aberta. Você não pode contar as cores, ou entrar dentro da televisão. Porque você rogou uma praga, porque você quis quem não devia. Porque você perdoou quem não queria.
Porque você esqueceu de pensar em alguém, e lembrou de pensar no ninguém. Porque você sentou no telhado com o céu quase clareado, com o salto ainda quebrado e sentiu frio. Mas não se aqueceu. Porque você deu voltas dentro de si e encontrou o vazio cheio. Porque todas suas roupas estão no varal, e também porque o varal quebrou. Porque a música dançou na aquarela dos teus dedos ao invés dos seus pés. Seus pés que choravam. Seus pés que cansaram... Suas mãos que cansaram, depois de tantos corpos terem passado. Seu olhar que cansou, sua boca que parou naquele beijo que não durou.
Porque o outono passa rápido, mas as folhas sempre teimam em grudar no seu jeans.




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