sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Sucessão

Que tem nesta caixa,
Velada entre segredos 
E vergonhas

Descubro alianças,
De amores deteriorados
Por mim abandonados

E tantas cartas, e cartas
Céus, cartas!
Letras ilegíveis
Letras esquecíveis
De nomes que já não lembro mais

Há um pingente de família,
Não da minha.
Há flores secas, desbotadas
Que posso fazer,
Jamais gostei das flores dele

Há a camisa dela,
Com o meu cheiro.
Um porta retrato
Com sorrisos, que hoje
Me parecem falsos.

Há também a tristeza
De amores não correspondidos
Uma camisa rasgada
Um tênis sujo
E uns sete diários.

Há uma corrente
Do cara das borboletas amarelas
Nunca mais vi elas
Eu boba acreditando
Em suas mil promessas...

Há passagens de ônibus
E embalagens velhas de garrafas
Vazias.

Uma concha!
Mas sem surpresas do oceano dentro
Seu dono morreu

Um livro,
Manchado de sangue
Ela era louca,
Por sorte escapei.

Há um cartaz espalhafatoso
Com ideias contaminadas por alucinógenos
Foi por muito pouco
Que não fugi pra Bahia
Fazer essa droga dar certo.

Uma estrela do mar?
Que porra é essa?
Não lembro...
Ah,
Ah...
(...)

Um ursinho Carmurro
Com cheiro de bebê e lavanda
Dormi muito tempo com ele,
Esperando que ela me perdoasse.

Ingressos de cinema,
De ópera,
De shows que não cheguei a ir.

Uma chave de apartamento
Será que ainda abre?
Seria engraçado
Se eu o pegasse de samba canção
Sapateando pelo quarto.

Há também as cartas
Que eu não enviei
Por ignorância
Por falha
Não me arrependo, não...
Só é estranho
Enterrar meu passado
Quando, na verdade,
Ele não parece estar morto.

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