domingo, 25 de setembro de 2011

Luísa Amanda

Mente impura, língua casta. E lá estava ela, confortada na janela, apreciando a cor do dia. Fechava os olhos e inspirava o júbilo cheiro da aurora nova, a grama molhada, o vento de álcool da madrugada, o ar úmido levando mais um dia de tristeza embora. Eu contemplava aquelas pernas se roçando por debaixo do vestido azul. Com os olhos também fechados, conseguia fantasiar a textura, tocava-as com o pensamento. De costas para mim, estremecia. Receando – como sempre – algo terrível que se aproximava. Eu, o mentor de sua paz, pousava as mãos em seus ombros ossudos, afastava o cabelo escuro e tocava-lhe a nuca. O rubro arrepio que se espalhava pelo corpo era instantaneamente sucedido para mim e ela – com a percepção sempre muito aguçada -  se virava e me beijava. Me beijava sorrindo, se não rindo, e depois de se assegurar que meu desejo pendia o limite, se afastava. Retornava a janela e esgotava o tempo com longas conversas engarrafadas. 
Aquela sim era uma garota sádica. 



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