quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Marina


Ando carregada, carregada de nuvens que circundam meu interior. São tão pesadas que minha alma cansou-se até de lamentos, justo eu que tanto choro escondido. São nuvens de despreocupação e indiferença, sobrecarregam meus órgãos e me fazem sangrar. Não apenas em um ponto como o coração, mas em muitos outros pontos e por muitas outras partes, até algumas que eu mal sabia que existiam. Ambientes inóspitos dentro de mim tornaram-se lar de sentimentos de amargura que eu não desejei. Tornei-me uma solidão constante, e isso verdadeiramente me dói. Queria conhecer mais as cores antes de me tornar gelada, e gostaria de conseguir transparecer toda essa minha dor... Mas não consigo. Aparento contentamento, felicidade. Mas sou apenas um poço vazio.
Nunca simpatizei com festas, não apenas após esses tantos problemas pessoais. Pessoas em demasia, vozes altas, bocas excessivamente molhadas de misturas sutis de tesão e álcool, músicas ruins, comidas frias. É tudo tão depreciado, esgotado, sujo, forçado. Mas cá estava eu, tentando animar-me... Há vezes em que me forço tanto em situações que acabo criando novos mundos dentro de mim, consigo criar novas personalidades e novas histórias. Eu consigo plantar sorrisos.
Não gosto de ser fraca com bebidas, não gosto de ser fraca com nada. Mas ser fraca com bebidas me deixa diante de meu maior medo: Ser exposta. É como se abrissem meu crânio e sugassem todas as minhas linhas, todas as minhas vidas. Posso parecer um pouco exacerbada, mas é apenas o que eu sinto.
Colocada diante de pessoas que eu jamais vira antes, me vi obrigada a plantar meus sorrisos e me sentir confortável. Isso me mantinha com a constante sede de álcool no sangue, me pondo em conflito com meus medos, mas por que eu iria me importar? A noite era minha, minhas ilusões, ninguém iria estragá-la.
Acho que foi quando eu estava perdida nesses pensamentos que eu a vi entrando, nervosa. Eu sentia sua essência de longe, era como um perfume delicado que percorre junto com o ar, brincando comigo e me provocando. Eu achei isso insinuativo, mas não o suficiente para me despertar vontades. Mais álcool.
Acho que aos poucos, como dois imãs atraídos, nos aproximamos e acabamos criando um elo forte de uma noite. É engraçado como fazemos amigos intensos e verdadeiros com facilidade quando estamos sob influência do álcool, é uma pena que eles durem apenas uma noite... Ou uma pequena temporada. Mas incrivelmente essa hora eu já estava envolvida o suficiente com aquele pequeno jeito ingênuo que Marina demonstrava. Me despertou a primeira vontade: A vontade de entendê-la. Roguei uma praga à mim mesma desejando que a próxima não fosse tê-la. Eu não podia.
Eu estou mergulhada nas minhas contradições, vivo em crise, uma guerra constante contra mim mesma e isso não deveria acontecer com tanta frequência... Eu preciso de um cigarro! Eu preciso de você! Não! Eu preciso de um cigarro! De você! Um cigarro... Você. Cigarro. Os dois.
Pressionei-te contra o carro e te beijei. Meus dedos colaram na tua pele e de lá não queriam sair. Embora todas as outras partes do meu corpo estivessem gritando alto de que isso era um terrível erro, e que eu iria me arrepender. Mas de que me importo? O álcool, minha cabeça, a nicotina... Não são boas misturas, certamente não são. Eu preciso ir embora. Você não é uma poesia, eu não posso, eu não preciso, mas eu quero. Merda!
Meu dia seguinte foi uma dura, dura dor de cabeça. Eu e meus problemas. Eternos amantes. Tentei me recordar de fatos que haviam apenas se tornado relapsos de memória, acho que minha mente corrompeu as imagens para que eu não me atordoasse o resto do dia.  Lembrei e depois esqueci. Vivi meu dia seguinte com cautela e calma. Muitos cigarros, muitos cafés. Meu segundo maior amante: Meu sofá. Meus sonhos. Meu descanso. O meu próprio e só meu egoísmo.



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