segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Romance inexistente chamado vida real

-      -  Já sei. Vamos à Portugal.
-      -  Porra, não gosto de portugueses.
-      -  Nem eu...
-       - Então, por que diabos Portugal, Azul?
-      -  Porque não vamos precisar de carro.
-      -  Portuguesas não se depilam.
-      -  Como se você nunca tivesse metido a cara em pelos.
-      -  Não me apetece.
-      -  Cruzes, ainda bem. Mas vamos!
-      -  Certo. Não acredito que me dei por vencido com tão poucos argumentos... Só que longas conversas me desgastam.

E foram. Dinheiro não lhes era um problema. E ainda que fosse, tinham mesmo essa necessidade de viver às margens de tudo. Sucedidas tentativas de suicídio concederam à Azul proteção contínua de seus pais – não se orgulhava, não – porém seus impulsos imprevisíveis, viagens e relacionamentos carnavalescos e corriqueiros eram todos saciados. Isso a mantinha viva. Almejava um companheiro mental. Vermelho caiu-lhe como uma luva. Tão louco e perturbado, era um conquistador barato. Sem suas mulheres, não era nada. Seu gosto era sentir seus gozos grudarem entre as pernas e ter a certeza de que certa forma elas o pertenciam.

Azul mexeu seus pauzinhos e pouco passou para em Portugal chegarem. Vermelho arranjou-se em uma biblioteca (perdido que só), sua tutora portava mamas fartas e óculos de fundo de garrafa.  Em seu beiço a prova viva: Portuguesas não se depilam. Enojado pode ouvir o fio ralo da risada de Azul. Fora de propósito. Maldita.

Azul era bonita e não sabia agradecer. Não era linda como muitas, mas tinha sua própria beleza, o que a tornava ainda mais bonita. Um loft metido à séc. XX, três quartos, uma cozinha, sala e banheiro. “Porra!, sorriu estupidamente. Era o melhor galpão do mundo. Um mês depois, devidamente instalados e falando quase como nativos, chegou a hora de saírem do casulo.

-       - Acho que estamos prontos agora, Azul.
-       - Será?
-      -  Adoro pensar quem na sua vida sou apenas passageiro.
-      -  Fazem seis anos, Vermelho. Seis anos.
-      -  Mas você sabe que não somos eternos.
-      -  Amém!
-      -  Como nos apresentaremos?
-      -  Não sei, já foi difícil acostumarem com Azul naquela espelunca onde chamo de trabalho.
-      -  Você que escolheu trabalhar num café, sua mosca. Ao menos não tens que conviver das oito às oito com a doce, mas tão doce, dona Helena.
-      -  Esse nome é convincente.
-      -  Azul Veneza.
-      -  Não, quero Azul Moscou.
-      - Posso escolher o meu?
-      -  Sinta-se à vontade, capitão.
-      -  Vermelho Itália.
-      -  Amém!

Primeira noite se engarrafaram do melhor. Beberam beira rua e mexeram com quem se aproximava. Conheceram Leon. Um cara engraçado, fodido e fedido. Não era atraente e muito menos simpático, mas tinha um fumo bocado bom. Prometeu-lhes mostrar a parte bonita da cidade, mas todos ali sabiam que de bonito não veriam nada, mas bastavam-lhes as segundas intenções. Vermelho queria aprender gaita e Azul desejava incorporar um ar português sujo ao seu olhar.
Leon era um tanto cabuloso. Não sabia o que cargas d’água fazia da vida, conhecia todos os bares, e, aparentemente, todos os bares lhe conheciam também.

-      -  Vocês não vão me falar como se chamam?
-      -  Já falamos – Suspirou Vermelho, um pouco embriagado.
-      -  Mas veja só, Vermelho e azul serão, então. São o quê, afinal?
-      -  Como assim?
-       - Casados, namorados, amantes...
-      -  Não! – Azul largou seu cigarro e declarou voz – Somos apenas irmãos.
-      -  De sangue?
-      -  Adotado – disse cabisbaixo.
-      -  Vocês Brasileiros são estranhos.
-      -  Foi você que tropeçou em nós com uma garrafa de cachaça tendendo o vazio...
-      -  Falam de um jeito estranho, também!

A amizade durou apenas uma noite. Não necessitavam mais do que isso. Leon fazia perguntas demais e isso irritava Azul profundamente, ao contrário de Vermelho, que se entretinha com a curiosidade alheia.
E assim foi por mais cinco meses. Toda semana Vermelho trazia uma nova menina para morar em casa. Era esse o prazo. Uma vida em sete dias. Azul não se importava, mesmo que ela escutasse cada metida e ejaculação que vinha do quarto ao lado, acabava-lhe soando como poesia. Trancava-se por dias e escrevia, escrevia e escrevia. Era aquela a sua droga. E de volta e meia, Vermelho – com as pernas bambas – chutava-lhe a porta.

-      -  Saí daí, porra! Você não é o Kafka!
-      -  Morre, Nicolau!

E Vermelho sorria. Sua garotinha – e somente sua – era completamente louca.  E quando Flora, Anelis, Melissa, Bárbara ou qualquer outra ia embora, Azul saía de seu quarto e dizia sempre a mesma coisa.
-       Preciso sair e comprar mais cigarros.

A verdade é que precisava de ar, criava tantas histórias trágicas de amor que se mordia até o calcanhar por não viver nenhuma. Daquela vez foi diferente. Azul, boquiaberta, parou por um pedaço de tempo que sentiu passar como horas. Do outro lado da rua, com uma silhueta precisa, passava uma baita portuguesa.  Morena que só vendo, olhos de guerra e lábios rachados... Azul estremeceu até a espinha. Desejá-la foi inevitável, e como desejou, cada papila e extremidade do seu corpo agora pulsava, acabara de conhecer sua musa.
Entrou e casa e deslizou até o fim da porta. Sentia seu corpo em êxtase total e olhou para Vermelho que estava em sua frente com um olhar de espanto.

-      -  Achei que só podíamos nos drogar aos domingos.
-      -  Não estou chapada.
-      -  Tem certeza?
-      -  Sim, eu tenho.
-      -  Cadê o cigarro?
-      -  Na bolsa.
-      -  Que fantasma você viu?
-      -  Cala.
-      -  Curioso...
-      -  Se você ousar dar uma de conheço tudo e todos dos pés a cabeça agora, eu juro, juro por todos os dedos que tenho nas mãos, que durmo na rua hoje.
-      -  O que deu em você?! – E trancou-se no quarto.

Azul foi dormir inquieta. No meio da noite seu orgulho a abandonou junto ao sono...
-       - Me perdoa? – Sussurrou empurrando Vermelho para o canto da cama.
Um beijo na testa e o sossego sucedeu-se. As palavras muitas vezes eram apenas (totalmente) dispensáveis. O calor dos dois era um segredo.

No dia seguinte Azul forjou indisposição, quis faltar o trabalho. Sabia que mesmo estando em perfeitas condições, o cheiro de café e velhos barbudos embrulhariam-lhe o estômago. Queria um dia para si. Vermelho foi para o encontro de Helena e seus livros, deixando a pequena em casa entusiasmada, começou a arrancar os trilhares de quadros e papéis que tapavam a cor branca da parede de seu quarto. Equivocadamente escolheu o próprio vermelho, encheu quatro latas e esqueceu o caminho de casa. Levou uma hora cheia para se encontrar e mal sentia seus braços quando chegou. Assim foi que seu quarto ficou todinho pintado com aquela cor que queima.

O verão chegou. Adotaram um gato chamado Sessenta e Seis, ou somente Seis. Vermelho era apaixonado pelo maldito gato laranja e Azul sentia ciúmes sem ao menos saber. Ocupava-se em demasia em escrever à sua musa que nunca mais vira.

-       - Azul, eu estou com um problema sério.
-      -  Acabou o leite?
-      -  Não... Acho que me apaixonei.
-      -  Como é que é?
-      -  Ela morou aqui com a gente mês passado.
-      -  A Ana Marília?!
-       - Não...
-       - Oh, não, não, não...
-       - A Rebeca.
-       - Cala! Cala, cala, cala!
-       - Para com isso, Azul. Por favor...
-       - Sai daqui, sai, sai. Xô!
-       - Vou pra onde?!
-       - PORRA, é você que é cheio de amigos com C! Liga pro Cássio, Caio, César, eu não sei e não quero saber! Vai embora logo.
-       - Certo.

Socava as paredes, armários, tudo que via pela frente. Nem Seis saiu ileso da fúria daqueles olhos amarelados. Nada na vida de Azul era mais importante que promessas. E a maior de todas elas era nunca se apaixonar, nunca. Você pode usar as pessoas, mas as pessoas não podem te usar. Estava tudo arruinado. Sua doença a consumia. Sua doença estava ganhando.

Pegou a garrafa de bebida mais barata da estante e virou-a em dois toques, desceu de casa cambaleante para esvair as ideias. Encheu toda a cara, tropeçou a rua inteira. E, em plena tarde de quarta, vindo da esquina e vindo em sua direção, sua musa acenava.

-       - Você está bem? – Aquela vagabunda tinha uma voz hipnotizante.
-       - Não.
-       - Quer beber um café e conversar a respeito?
-       - É simpatia demais pra uma rapariga só.
-       - Tenho tendências de resgatar bêbados caídos na rua.
-       - Isso não é nada racional.
-      -  Ah, meu bem... Eu quase não sinto medo nessa vida.
-      -  Você foi estuprada por um padre ou algo assim?
-       - Pior.
-      -  Você precisa conhecer o meu irmão.
-       - Por quê?
-       - Vai gostar dele mais do que de mim.

E mesmo bêbada, com os joelhos esfolados e a raiva dissipando seu corpo, traçou um plano vingativo. Trocaram telefone e Azul foi para casa desmaiar. Chamava-se Lou. Provavelmente Lou de Louca.
Exatas meia noite e Vermelho voltou, aturdida, levantou-se e jogou-se em seus braços.

-       - Promete que não vai mais vê-la?
-       - Não.
-       - Isso, meu amor! – E tascou-lhe um beijo nas têmporas.

Três dias depois, Vermelho e Lou foram devidamente apresentados. Azul estava feliz novamente. Lou era difícil, mas nada que um filho da puta manso como o Vermelho não conseguiria mudar, que sequer fazia ideia da traição de Azul...
Em seu quarto a arte penetrava. Estava possuída, em transe. Foderia si mesma se as mãos não estivessem ocupadas escrevendo. Ali nasceu a moça bandida que roubava sentimentos. Lou se mudou em um par de meses. Ela tinha seu próprio quarto, mas era de se esperar que à noite ocupasse a cama de Vermelho. Os dois juravam silêncio, porém as paredes eram finas e Azul não tinha sono. Escutava e sentia o prazer deles. Os gemidos abafados estalavam no vão da porta, e casa chupão, puxada de cabelo e mordida era transformado em palavras no livro preto de Azul.

De manhã sentia como se tivesse passado a noite toda provando do ventre de Lou. Azul ficou distante, dentro do seu mundo e Vermelho sabia. Sabia que havia algo errado. Quis morrer.

-       - Hoje estou cansado, Lou.
-       - Certo, certo. Você bebe do meu gozo toda noite e acha que a qualquer hora e qualquer momento pode decidir se me quer ou não?

Lançou um olhar fúnebre e fechou-lhe a porta na cara. Perdeu-se na noite, provavelmente enchendo a cara com seus amigos invisíveis da faculdade. Voltou alta e na ponta do pé. No quarto, Azul vestia somente uma camisa e sabia exatamente o que vinha pela frente. Sua capacidade de prever o futuro era surpreendente. E assim foi. Silêncio e estalo de beijos molhados. Seios palpitantes e mamilos enrijecidos roçando-se. As pernas entrelaçadas, encaixadas, lambidas no sangue fervente entre elas. Lou doou-se como banquete e Azul provou de sua musa. Era doce como imaginava, mas algo terrível doía em seu peito e Azul sentia como se fosse nela. Gostou tanto disso que a cada vez que escorregava seus dedos dentro de Lou, apertava-lhe um pouco as unhas para ter o prazer de ver suas costas arquearem de dor. Lou sorria, massacrada e prostrada na cama de Azul. Elas sabiam que estavam pecando.






(...)

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