quinta-feira, 29 de março de 2012

Antes

Antes inveja eu sentisse
Dos caracóis de teus cabelos
Da tua boca de fases como a lua
Tua face sempre nua
Morena do mesmo sol que banha
Essas tuas pernas e costas carnudas!

Antes repúdio eu tivesse
Da tua flor descoberta
Que não sabe dizer não
Teu cheiro derramado
Impureza da menina libertina
Que zomba céus e mares
Dizendo “te anseio, mas não sou tua!”

Antes ao menos eu te amasse
Mas nem isso sou capaz
Pois teu coração inabitado não permite
Amar de nenhum rapaz,
Quanto mais permitiria
O amar de uma pobre poetisa?

Antes eu apenas pudesse contemplar teu corpo
Monumento minucioso concebido
Pelo deus da natureza e da perfeição
Mas não, por que o sujaste?

Antes eu pudesse entender
Tuas boemias carnais tão vazias
E entender a censura do teu amor
Tuas incertezas de menina
Seria tu mesma a sua própria companhia?

Antes de ódio eu me possuísse
Pela tua facilidade em transcrever
Tudo aquilo que não arriscas viver

Antes tu fosses decifrável
A menina litorânea de mil lados
Que de tão grande se tornou frágil!
O corpo fácil que protege o íntimo intocado

Antes a vontade de te ter me ganhasse
Mas nem isso consigo
Fico a observar teu recitar cruel que rasga
Com seu canto de sereia diurno
Atrai os homens fracos com sede de néctar noturno
Carnívora se satisfaz de carne!
E chora o pranto da solidão perpétua

Antes eu fosse como tu, morena!
Mas criaste uma singularidade tua
Que até mesmo o espelho sente medo
Toda vez que confrontas tua vida crua!

Um comentário:

Paulo Sperb Sefton disse...

Meu Deus, que poema magnífico!