segunda-feira, 19 de maio de 2014

Nulo.

Sou vazia como esta rua noturna, às vezes me confundo com meus passos lentos sincronizados contra os asfalto, acreditando que possivelmente outro par de passos está atrás de mim a me seguir, paro e silencio. E então percebo aterrorizada que meu sons são monossilábicos, estou só junto com infinitos casais de postes que me zombam. As árvores cruéis riem de mim em pequenos uivos junto ao vento: eu parto sozinha por decisão própria, repelindo os que de mim tentam se aproximar. E em minha maquiavélica ousadia ainda me indago os motivos de estar voltando para casa desacompanhada, buscando em olhares súbitos a minha volta sinal de existência humana que me resgate e arranque de mim qualquer pronúncia, eu não temeria a aproximação de algum estranho nesta rua. Porém estou só, volto para casa sozinha em silêncio, escoltada por esta natureza urbana intacta que sabe de mim e não sente pena. Afinal, por que haveriam de sentir pena de mim os grilos, sapos, folhas secas e cimento da calçada? Venho só e só eu permaneço em meu desassossego melancólico.

Um comentário:

Gyzelle Góes disse...

Perfeito, como tudo que você escreve... Esse sentimento de ser nula no mundo, passo todos os dias