sábado, 6 de setembro de 2014

Presságio

Essa noite sonhei. Sei que, inevitavelmente, sonho todas as noites e em todos os sonhos ultrapasso pensamentos peculiares em desconstruções e subúrbios. Mas o que diferencia este sonho dos sonhos que sonho todas as noites, é que eu era capaz de sentir e tocar como sinto e toco desperta. Sonhei com a cidade noturna em que moramos, em sua exata forma, arquitetura e semblante dos céus. Sentia o cheiro em absoluto de tudo que me rodeava, de forma que distinguir meu sonho da realidade só fora possível pela manhã, quando acordei em soluço. 

Passeei pelas ruelas desertas de minha consciência aflita pela tua presença, procurei-te em cada lugar que conheço desta cidade, mas não te encontrei. Estava, naquele momento, agustiada e delirante por estar semi acordada, num sono que não me acolhia por completo. Enquanto carne, revirava meu colchão, enquanto quimera, corria quarteirões. Quando pude finalmente fechar minhas pálpebras cansadas e deveras embriagada, juntei-me ao exército que fui capaz de encontrar em minha criatividade fraca para me acompanhar em tua busca. Cada minuto em tempo real era-me como horas de uma noite infinita. 

E buscar tornou-se minha perversa diversão, tua inalcançável presença e meu inabalável anseio de ti me levaram a becos e beiradas. Entrei em inúmeras casas e igualmente incontável cumprimentei suas famílias, que me desejavam fortuna e sorte, como se acompanhassem participantes de minha busca, minha busca por ti. Meu martírio afincava meus pés ao solo, cada vez mais meus pés agora exaustos pediam por um pequeno momento de trégua e minha intacta esperança não me permitia descanso, queria te encontrar. 

Meu corpo ancorado à calma da cidade, que não estava vazia. Avistava pessoas em todos os bares e como havia bares! Acreditei que te encontraria em um deles, entrei em todos os bares de que tenho conhecimento. Não estavas em nenhuma cadeira, em nenhum copo. E cheio de amargura, o dia começou a surgir. Comecei a acreditar em tua impossível presença e fui desalinhada pelos infortúnios da realidade, ainda que em sonho. Retornando para casa, ri de minha tragédia, nada mais havia a procurar. 

E ainda retornando para casa num silêncio arruinado e regurgito pelas aves e seus estranhos piares de aurora, foi que te vi pela primeira vez na noite deste sonho, diferente de todos os outros. Uma larga avenida separava-nos e atravessá-la em direção ao parque em que estavas era-me uma ideia tão severa e dolorida quanto a ideia de arrancar toda minha pele que me reveste e protege como crosta. Fiquei em pé, te vendo de longe, calada e medíocre. 

Cegada pelo sol e pela tua camisa vinho desabotoada, percebi que minha missão era falha. Eu te via e nada fazia. Não havia planejado o que fazer diante de tua figura. Abri meus olhos e desta vez completamente lúcida, me senti envergonhada de minha incompetência íntima. 

Agora, quase acordada e distante de meu sonho, eu guardo em segredo como sofro diante da impotência de me dirigir a ti. 

2 comentários:

Fabrício disse...

Queria eu ter a habilidade de escrever assim.

Brunna Côrtes disse...

Um dos mais belos. Absolutamente.