terça-feira, 30 de setembro de 2014

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Em frente à minha janela existem três casas parecidas com a minha, arriscaria dizer que são exatamente iguais. Em frente à minha janela moram famílias monótonas que não me inspiram interesse algum. Acordei trinta minutos mais cedo e esperei o tempo passar na sacada, pelos sons da minha rua deserta eu sabia qual casa já havia despertado e quem escovava os dentes. Eu conheço a rotina de cada vizinho, embora não saiba seus nomes. É uma intimidade estranha. Acho que tropecei cinco vezes indo ao trabalho, esqueci Goethe em casa e me enchi de tédio ao imaginar como seria o resto do dia assim. Tropecei mais outras cinco voltando, entediada, estressada e cheia de fadiga. Esqueci as chaves de casa e deitei no portão, com a cabeça no meu casaco (eu sempre levo casacos). Peguei no sono esperando alguém aparecer, atordoada acordei e vi pela fresta da janela da casa em frente, alguém me observando. Senti algo terrível, meus vizinhos saberiam também da minha rotina? Acenei para pessoa e ela sumiu. Contei formiguinhas e desde então estou vigilante do lado de fora, tentando observar o que faço. Acho que fiquei entorpecida inúmeras vezes ao me pegar sendo igualmente monótona. 

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