segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Puída

Eu que sempre muito soube, sempre bem me portei, sempre soube selecionar as palavras de meu vocabulário e tornava os gestos cálidos em gestos tenros. Eu que com o rosto puro enxergava a vida devagar e andava muito por hora com meus pés descalços propondo sentir o chão e a terra participarem de meus caminhos vagos. Eu que nunca tive pressa e sempre convicta do tempo que me rege, do passado que abandono, do presente que me transcende e do futuro que me elege. Eu que sempre enalteci em sonhos esparramados pelos lençóis, que aflorei meu corpo frêmito em milhares de odes, acordei estática e ridiculamente empalecida em uma alma vil. Eu, vil, fétida e minúscula. Compactada em um mísero canto de minha cama, ausente de palavras e substâncias. Eu, inconcreta, lamuriante e desgastada. Sem gosto, sem possuir ar de nada. Eu que tola acreditei ter sido construída por um íntimo singular, intacto e sereno. Acreditei possuir perpetuamente a mesma essência, o mesmo silente sorriso perante a exultação dos dias. Enganada pela minha própria crença, acordei imunda de uma verdade que não me pertencia, descrente do prazer e da euforia, manchada por um sofrimento ordinário.

3 comentários:

Anônimo disse...

Te leio há mais de anos já e eu nunca comentei nada aqui... Só que depois desse texto deu uma vontade absurda de dividir algum momento contigo, nem que fosse de conversa ou de silêncio. Nenhum sofrimento é ordinário, o sofrimento -acredito eu- é a maior ferramenta de construção de nós mesmos, tu não seria quem tu és se não tivesse sofrido o que já sofresse. Só o nada é ordinário, o resto é experiência.

Marcela disse...

Poderíamos dividir uma conversa reflexiva sobre esse assunto - essa é uma proposta verdadeira. Partilho da tua concepção de sofrimento... mas sentir me é tão diferente do pensamento.

Anônimo disse...

-Não sei se tu usa e-mail, dos meios mais acessíveis para mim é o melhor-
Me manda um e-mail quando sentires vontade de conversar.
laimee400@gmail.com