segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Prece

És o meu levante noturno, vou até a cozinha apalpando as prateleiras em busca de um copo d'água, novamente te encontrei em sonho. Tua forma de dizer adeus dentro de mim. Eu não aceito o fardo de que não és meu e eu não mais serei tua, com minha água em mãos vago trêmula e cansada até o banheiro, prendo o mesmo cabelo que você diz com expressões de gozo que gostas tanto de puxar e retorcer, me abaixo, lavo o rosto corrente. No espelho, não me reconheço. Vejo cicatrizes invísíveis e sulcos fundos, olheiras que anunciam minhas noites mal dormidas. Puxo minha pele, talvez com deformes eu me veja, me compreenda. Ela é macia, uniforme, continuamente branca e nova. Estranho transparecer tanta vividez onde por trás há apenas carne morta. É claro que é momentâneo, um novo let it be em minha vida. És o amor presente, o amor vivido por mim tão intensamente e deixado à esmo pela tua desfarçada infantilidade. Imaturidade de corpos, somos poesia. Sim, poesia... aquelas que tens nos olhos e eu não posso ler. Aquela poesia que deixamos em suor e cheiros pela minha cama, esse alvoraçado, incompreensível sentimento cultivado, denso e terrivelmente irracional. Não faz sentido, me apaixonei, me entreguei e me reparti novamente em oceanos e céus de lamúria. Azul, por que não me deixas? Por que me procuras com sensações de morte quando tua imagem é símbolo de calmaria e esperança de um horizonte novo? Seco meus olhos que não choram, minha boca que não geme e todo o silêncio teu que em mim fez morada. Volto para o quarto ainda cambaleante, um pouco mais fresca e a memória menos relapsa. Deito, apanhada em meus joelhos que quase encostam os lábios... fecho os olhos e rezo ao deus que jamais acreditarei que me traga um pouco de paz, ao menos em sono. Que leve esse tua presença materializada em meus pensamentos embora, ou as guarde em um lugar seguro do meu passado. E assim, imploro todas as noites pela tua partida de mim.

Nenhum comentário: