sábado, 25 de outubro de 2014

lisergia

Não sei se um dia eu soube 
Somente sei que hoje sei menos 
Do que um dia eu soube 
Sobre quem sou 

Se em algum momento 
Na penumbra de minha vida 
Eu mantive alguma certeza, não sei
Somente sei que hoje absolutamente 
Nada de mim e dela eu sei 

Suponho meu passado 
O vejo abstratamente 
Como se não o tivesse vivido
Temo meu futuro 
Ando em passos incertos 
Pois até em meu andar 
Não há a confiança que me falta 

Não sei quem fui e 
Quem sou 
Inutilmente assombram-se

As sombras de meu amanhã

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Metáfora de sexta

Jamais proferimos palavra alguma sobre o futuro, o presente era nosso alimento e tortura. Éramos aberrações da natureza, ao passo que nos atraíamos, violentamente nos repelíamos e nossos corpos vagavam conturbados nesta dança sobrecarregada de movimentos confusos. Éramos seduzidos pela boca e por ela mesma regurgitados. Gritamos nossas vontades, certos de em algum ponto impreciso, arrebentaríamos nossas cordas vocais e não nos sobrariam vozes que refletissem o adeus já prometido. Erramos ao falar em tempos verbais, eu igualmente erro ao recitar sobre nós, se ainda estás ao meu lado. 

terça-feira, 30 de setembro de 2014

55

Em frente à minha janela existem três casas parecidas com a minha, arriscaria dizer que são exatamente iguais. Em frente à minha janela moram famílias monótonas que não me inspiram interesse algum. Acordei trinta minutos mais cedo e esperei o tempo passar na sacada, pelos sons da minha rua deserta eu sabia qual casa já havia despertado e quem escovava os dentes. Eu conheço a rotina de cada vizinho, embora não saiba seus nomes. É uma intimidade estranha. Acho que tropecei cinco vezes indo ao trabalho, esqueci Goethe em casa e me enchi de tédio ao imaginar como seria o resto do dia assim. Tropecei mais outras cinco voltando, entediada, estressada e cheia de fadiga. Esqueci as chaves de casa e deitei no portão, com a cabeça no meu casaco (eu sempre levo casacos). Peguei no sono esperando alguém aparecer, atordoada acordei e vi pela fresta da janela da casa em frente, alguém me observando. Senti algo terrível, meus vizinhos saberiam também da minha rotina? Acenei para pessoa e ela sumiu. Contei formiguinhas e desde então estou vigilante do lado de fora, tentando observar o que faço. Acho que fiquei entorpecida inúmeras vezes ao me pegar sendo igualmente monótona.