quinta-feira, 31 de maio de 2012

poeta V


Intuição, talvez. Creio no instinto
Instintivo toque, instintivo olhar
Sossegado humano sagaz e intenso
Naufragado em mim, invadido pelo beijo
Não culpo, até busquei
Explorando por sete mares
Afogada nos meus desenganos
Tu trouxeste a verdade conveniente
Com a mais densa franqueza
Do teu infiel passado, sem receio
Como outros já o houveram comigo
Me tolerando com as luzes acesas
E pés descalços,
Livre,
Assim a ruína figura-se maior
Jamais guerreei com tanta alforria
Mas vá, mergulhei igualmente nos braços
Canais estreitos longínquos
Prontos para meu cadáver alagado
Já tendo desvendado quase todas minhas esquinas
Abocanhando veemente minhas frestas
Violentamente provocando incertezas
Minhas pequenas bestagens
Me reduzindo atroz
Me elevando ideal
Nós dois decadentes e perdidos
Embebedados rindo alto de brutalidades literárias
Escarnecendo dos bravos corajosos
Enquanto ocultados atrás de copos
Escrevemos nossas insignes histórias auto biográficas
Que por acaso não vivemos
Viveremos, sim
Verás
Verás que mesmo indolência de nossas insanidades
Influente do passado de ídolos consagrados
Voaremos no destino certo
Não seremos doidos sem ter onde cair
(Sobre)Vivendo de lirismo e cachaça barata
Concordo que da loucura não há fuga
Pois divagamos nesses barcos na maré dos céus
Onde os poetas tatuam em obras suas marcas
E poucos lá conseguem navegar
Eles só querem ficar lá embaixo
Pacatando do que chamam de vida
Nós apelidamos isso de tudo menos de vida
Um brinde aos idiotas
Hahahahahahahahahaha
Merecemos mesmo um cargo no inferno...
Zombamos em demasia dos desgraçados
Esses sim não têm onde cair
Passando metade do tempo reclamando
E a outra brigando
Me salvem disso
Eu quero é uma porrada de amigos geniais
Uma sacada arejada digna de música boa
Um apartamento depressivo lotado de livros
Porque no fim das contas conhecimento é tudo que temos
Eu quero é viver em paz, por favor...
Eu quero é ser reprimida por escrever algo imoral
Eu quero amores ardentes e verdadeiros
Que recheiem páginas e mais páginas
De um caderno empoeirado de capa dura
Uma obra inteira de epopeias concretas!
Eu também quero aventuras ousadas
De porres psicopatas
cinco noites inteiras chapada
Escritas com a insônia de sonhos usurpados
Criando terras fantasiadas
Onde ninfas despidas acoplam com vigários
E existem cachoeiras cerveja e árvores de marijuana
 Narrando detalhadamente crimes carniceiros     
Cometidos todos pelas vozes do meu inconsciente
Único lugar que sou livre para minhas psicoses sádicas
E onde eu cometo os meus suicídios
Não é exagero, todos nós temos muitos eus
Tu mesmo tens teu lado Casanova
E outro sanguinário escrevendo impetuosamente crônicas do inferno
Um lado tentador afagando corpos miúdos de garotas apaixonantes
E outro lascivo e independente
necessitante de fodas brutas e uísques devotados aos beatniks
me pergunto pelo qual dos dois sou cativada
provavelmente por ambos
incidida com proles lascivas
definhando minhas ideias e compondo novas
maltada com cheiro de flor, doce e macia
mas atrás do azul dos olhos escondendo massacres de mentes agonizantes que gritam e berram e jorram morais e códigos na minha cabeça pequena
essa verdade absoluta que tenta e tenta e tenta mais uma vez calar nossas bocas
vá... cala minha boca mas ainda tenho os dedos!
Juro pelos antigos poetas que não vou me finitar
E eu te fiz prometer por mim também
E tu vais cumprir tua promessa perpétua
Pelos mares que tu penetrarás
Após dez anos de analises cansativas
De mentes transtornadas que escutam ruídos pelos corredores
Que são tão obscuras quanto nós
Que estão tão perdidas quanto nós
Pela ilha fantasma que descobrirás
Depois de mil ilhas mirageadas
Com a garganta seca de sal
com o cabelo ensebado e sandálias de pau
e a alma exasperada
tu e mais outro rindo alcoolizados
gracejando enfadonhos do tesouro alado
terás tua terra! tua! Lar das tuas poesias!
Dentre teus segredos de garoto libertino
Podes não ser tanto por fora
Mas como eu digo sempre e repito
Tu és um porto navegante e estás em alto mar
Contudo um pirata saqueador de menininhas
Não culpo! É lindo!
Tens mil amores reais
Eu tenho aqui um pingado...
Nessa tua ilha darás o nome que almejares
Lá sim sentirás a liberdade
Com a brisa azul açoitando o rosto
E a saudade sentada no teu lado
 com os pés afundados na areia virgem
O sigilo levado ao túmulo e partilhado aos sonhadores
Devaneando as tuas histórias
como outrora nós devaneamos a de outros
Se tu se sentes mal por ainda não ter vivido
Levanta esse corpo leve e vá fazer algo
Já tens a índole necessária e os sonhos
Arregaça as mangas e erga teu barco
(Me beije mais umas milhões de vezes até lá)
Tens só vinte um, vinte um!
E mais umas vinte uma mil histórias a contar
E outras vinte uma mil a viver
Eu, pequena do jeito que sou, hei de ser grande um dia
E tu que já és grande, prevaleça-se
O tal dono de pélagos inteiros de amor
Tens um meu
Devoto a ti muito tempo pensando
E escrevendo
Sem querer tu virou herói de muitas histórias minhas
És eterno em lugares além da minha memória

Não te julgo, minhas linhas expõem meu medo fraco
Meu medo aterrorizado
Meu medo de perder o que não tenho
Porque a dor é igualmente violenta
Por isso sou pequena vagando temerosa
De tempestades e mentiras
Embora seja da minha boca muitas ditas
Estranhamente não a ti
Tu que se aboca as minhas confusões
Brincando por eu ser embaraçada
Como se fosse insegura e indefinida
Eu sei quem sou, poeta
E eu sou o Eu te amo


Feliz aniversário?

Plumárias


Pra quem distorce o lúdico,
nunca é fácil abster-se do real.  

Para quem vaga entre lacunas,
Acaba por medir distensões
entre sorrisos e intenções.

E para nós, alienados
Suicidas, descabelados
acordados por dias e noites
Com sonhos de ópio
E íntimos de sangue
Nos resta o ordinário,
O coloquial,
O banal.

Memórias de quinta


As coisas mudam, sabe. É, as coisas mudam. E melhor do que mudam, ela se transformam, se reconstituem, se adaptam aos novos sorrisos e percepções. Um convertimento de novas ideias, de novos parâmetros de contemplar.  Eu não te via dessa forma, te via como um objeto inerte e inalcançável. Algo pertencente somente às minhas idealizações e vontades, mas agora você está aí, no outro banco do carro, com uma cara lenta e soltando fumaça regurgita pro céu. É difícil entender, porque mais do que isso, sinto que você me teme. Percebo isso nesse teu olhar acanhado e até quando você começa a barba com o cenho franzido, como se tentasse adivinhar o que eu estou pensando, que plano perverso estou tramando contra você. Mas não é isso não, te olho com júbilo escondido nos olhos, não quero te mostrar que estou entregue, que estou exasperada de felicidade, afinal, quem mais teme aqui sou eu. Temo perder algo que quis por muito tempo. Eu já sei qual é a sensação de te perder, pois te quis por muito tempo e, sem que nenhum de nós soubéssemos,  te perdi inúmeras vezes. Te perdi pois me escondia, me atrelava na minha timidez, nos meus silêncios. Me fiz insuportável, como você disse. Só que eu era a mesma, sempre fui a mesma. Eu te contemplava de tal forma que ao te ver falhei, e falhei comigo. Mas o tempo passou e o outono te trouxe de volta, agora você está mais perto do que nunca. Aí do outro lado do carro, segurando minha mão firme, como se não quisesse me perder. Isso é estranho. A vida parece zombar de mim. Mas não importa muito agora, o que importa é te ver terminar esse cigarro interminável e me aninhar no teu colo de novo, te puxar pela gola da camisa, te tascar alguns beijos no queixo, no rosto, na testa e na boca. Sentir cócegas até gritar igual a um bebê, sofrendo de satisfação. Essa tarde poderia ser eterna, com esse maldito céu azul teimando em dizer que a vida ainda vale um pouco a pena, essa brisa densa batendo o rosto e teus beijos insanos, nosso confronto de bocas...