Deitada vejo a chuva molhar a grama do quintal, não tenho forças para levantar. Permaneço no meu ofício de observar o pequeno recorte de natureza que sobrevive sombria nesse lado da cidade. Desde pequena tenho medo da chuva se estou dentro de casa, por esse motivo sempre saio quando chove e fiz disso um ofício, ainda que metade das minhas linhas pareçam figuras de linguagem.
sábado, 26 de outubro de 2019
eu até gosto da farsante sensação de recomeço entre um ano e outro. aqui no meu quarto - onde boa parte de mim acontece - tudo está bem diferente, mas estou certa de que a culpa não é astrológica ou das promessas que fiz às vésperas das férias de verão sobre fins de ciclos e começo de novos.
sinto que mudei todos os meus móveis de lugar e me percebo tão confusa com a nova decoração. eu não mudei para outra casa, mas meu cabelo está mais escuro e comprido, também me desfiz de muitas peças de roupa e livros, só que a verdadeira mudança não é visível, nem palpável, é visceral.
pois note: é dentro de mim, num lugar cheio de ranhuras e órgãos - e não dentro do meu quarto - onde eu de fato aconteço.
sinto que mudei todos os meus móveis de lugar e me percebo tão confusa com a nova decoração. eu não mudei para outra casa, mas meu cabelo está mais escuro e comprido, também me desfiz de muitas peças de roupa e livros, só que a verdadeira mudança não é visível, nem palpável, é visceral.
pois note: é dentro de mim, num lugar cheio de ranhuras e órgãos - e não dentro do meu quarto - onde eu de fato aconteço.
segunda-feira, 29 de outubro de 2018
Os dias têm sido estranhos.
Escrevo essas linhas para o futuro, espero que não tão perverso... sei que temos uma idealização bem poética sobre a virtude de todos os seres, mas você está enganada, Sal. O mundo tem potencial para ser igualmente bom ou mal, a carne de todos os seres é muitas vezes corrompida por coisas que você não entende. Não seja ingênua e se proteja.
sábado, 27 de outubro de 2018
Foram muitos espaços que silenciei. Escrever sempre foi um ato antropofágico para mim, sempre me alimentando com um pedaço cru meu. A carnificina da minha existência foi essa, escrever e me sujar do meu próprio sangue num ato cíclico e sem fim.
Durante toda a minha vida fui espectadora, dificilmente participei dos momentos vividos. Por algum motivo, eu não estava lá, ainda que não tenha certeza de onde eu estava se não ali onde estava. Porém de alguma - estranha - forma posso dizer que sim era eu ali, um eu sintético e postiço, um eu fragmentado. Um outro pedaço - não tão cru - de mim representando meu todo. Essa foi a grande questão de minha vida, entender quem eu era e entender minha representação diante do mundo. Diante de todas as pessoas que acreditavam e acreditam que minha representação fragmentada é, de fato, meu eu.
Pedaço meu que tantas vezes escutei ser belo e me senti trapaceando. Pensei inúmeras vezes estar engasgada, escrevi sobre isso! Sempre numa espécie de suplício: eu não consigo existir. Estou aqui dentro, apenas observando. E por mais frustrada que seja minhas tentativas, permaneço aqui com o rosto vermelho sem conseguir me pronunciar por completo.
quarta-feira, 13 de junho de 2018
É frequente que eu me distancie da escrita e ainda mais frequente que eu me distancie desse blog.
quarta-feira, 28 de março de 2018
Penso no quão egocêntrico tem sido minhas linhas. Quão covarde, prepotente e solitário é escrever. Quanto de mim eu descobri alimentando essas páginas. Quanto de mim registrei e perpetuo histórias do meu eu passado, estático e delicado. Recitado para estranhos, entre vírgulas e datas.
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018
Eu não compreendo a carnificina da existência. Os dias parecem me comer vivo. Minhas palavras me engolem numa contradição antropofágica. Eu, que as dou vida, morro no momento que o faço.
Reconheço minhas mortes como penitência e num último instante de lamentação engulo seco meus pedidos de suplício. Não quero morrer em vão. Quero que lembrem meu nome, quero que reconheçam meu sangue. De santo nada possuo, mas não posso morrer como poeta vazio. Quero que vivam pelas mesmas palavras que me matam, quero que sintam o cheiro do meu sangue derramado nas páginas que seguem minha autobiografia barata.
Eu não aprendi nada vivendo, porque vivi só. É impossível evoluir vivendo em solidão. Eu me escondi de todas as pessoas que tentaram se aproximar e meu único meio de comunicação com o mundo externo é e tem sido minha escrita. É aqui que eu grito e velo meu desespero. Sim, estou desesperado. Extremamente desesperado. Anunciaram minha morte e não há nada que eu possa fazer para impedi-la. Irei partir assim, desesperado. Lamentando minha própria miséria, meu fracasso. Lamentando não ter deixado um último beijo aos que eu tenho amado. Lamentando por ter nascido com minha morte prematura anunciada, lamentando por ter desacreditado no destino e estar aqui, por fim, cumprindo o meu.
quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
Recordo, com pouca nitidez, que costumava viver a vida com passos apressados. Até o início de minha juventude, senti pulsante em meu sangue a necessidade de presenciar todos os momentos, encher meus pulmões com todos os ares e enxergar tudo que meus olhos alcançassem. Era incapaz de dormir com leveza ou respirar fundo pela manhã, pois meu coração intranquilo não me permitia paz alguma, sedento pela constante presença de novidades em meu cotidiano.
Contudo – e até hoje procuro entender os verdadeiros motivos – minha personalidade sofreu uma fatídica mutação, quando completei minhas poucas e limitadas dezoito primaveras, tornei-me uma pessoa calma. Sou hoje impassível, ainda que deseje igualmente presenciar momentos, encher meus pulmões com diversos ares e enxergar tudo que meus olhos consigam enquanto me há a visão, mas ao deitar-me à noite, ao inspirar pela última vez lúcida antes de dormir, estou calma.
Consigo enxergar o que meus olhos antigos não viam com tanta precisão, eu consigo ver a poesia. Quase palpável, estática em todos os segundos em que existo. Faz parte de minha essência conviver com o drama de presenciá-la a todo instante, faz parte de minha sina compreender que eu possa pareça alheia ao apreciar vazios que aparentam estar silentes, mas que para mim gritam. Faz parte de meu exercício buscar alguém que me reconheça, que veja através do mesmo par de lentes que o meu.
Não creio em doutrinas religiosas, minha fé não possui autoridades, não possui comunidade. Minha crença caminha livre pelo universo, está no ar, na atmosfera. Está no que não é ouvido e não é visto há anos luz de nós, está nos laços familiares, na aptidão humana de sentir calafrios ou dilatar as pupilar ao ver algo que goste, minha crença caminha junto à toda a bondade e educação já vivida, eu creio no altruísmo e no amor. Posso parecer ingênua e tola, mas agarrar-me à esta crença me faz existir num mundo bonito, alicerçado na esperança que luta contra aos massacres e guerras humanas. E enquanto eu existir, será isso que defenderei. Apesar de curta e imprevisível, a vida me permitirá deixar meu legado pessoal, minha herança. Enquanto eu puder viver e ensinar o amor, o farei. Será minha incessante busca, a única inquietação de meu peito.
domingo, 28 de janeiro de 2018
A falta de sono foi o presente que a vida me deu. Aos insones resta a sina de ter muito o que pensar. Eu não preciso desabafar, pois todas as noites revivo meus dias e dores enquanto converso comigo olhando para o escuro retangular e sinistro do meu quarto. A parca iluminação da janela reproduz formas estranhas à noite. Eu não preciso ter a quem recorrer, se meu eu noctívago usa destas mesmas formas e demônios como amigos com a mesma intimidade de quem serve café de fim de tarde para as visitas. Eu sou só porque deus me fez só, deus me fez insone. Minhas olheiras fundas e meu estado quase sempre automático anunciam meu existencialismo consequente da insônia. Sempre cansado, eu basto só. Eu basto no silêncio de meus lençóis, trancafiado em minha cabeça, sentado em uma mesa alegórica e sempre conversando com o meu reflexo no espelho posto diante a mim no outro canto desta minha mesa fictícia.
quinta-feira, 11 de janeiro de 2018
Eu não suporto mais o passageiro,
O que não é permanente eu deixo ir sem dor.
O que não é permanente eu deixo ir sem dor.
segunda-feira, 20 de novembro de 2017
Ainda que minha particular poesia cante
palavras repetidas de sentimentos ambíguos
ao escrever eu me dispo das vestes
que me embebam dos mares da dor
Nua e repleta de azul, ofereço aos céus meus cânticos
e infortúnios causados pelos meus olhares românticos
Minhas palavras são tão repetidas
quanto os ecos de meus gritos
contraditórias cantam réplicas
dos próprios males
que através delas
renuncio.
palavras repetidas de sentimentos ambíguos
ao escrever eu me dispo das vestes
que me embebam dos mares da dor
Nua e repleta de azul, ofereço aos céus meus cânticos
e infortúnios causados pelos meus olhares românticos
Minhas palavras são tão repetidas
quanto os ecos de meus gritos
contraditórias cantam réplicas
dos próprios males
que através delas
renuncio.
Sinto os dias escaparem de mim como vagas paisagens entre os piscares de olhos que observam algo em movimento.
Eu não desejo a perpetuação do agora, mas o sentir destilar em minha pele e adentrar meus poros e feridas o gosto de todos os dias, sentir-me novamente envolta da sensação de estar viva e presente em minha própria realidade.
O que eu sinto agora é como o trepidar de vento que ainda gelado me beija a nuca e uiva em meus ouvidos os fragmentos do meu cotidiano que eu mesma não vivi, silenciosamente.
O que me rodeia é passageiro e superficial, sinto de maneira dolorosa e melancólica a falta de minha antiga percepção, como uma úlcera visceral que pulsa.
Eu rasgava e engolia minha vida crua, inteira e a violência dos dias me carcomia os órgãos por dentro, era dolorosamente fantástico.
Eu rasgava e engolia minha vida crua, inteira e a violência dos dias me carcomia os órgãos por dentro, era dolorosamente fantástico.
Perdi-me ao aceitar os dias virem e partirem com a mesma leveza e despreocupação de alguém que nada sente ou percebe.
O desinteresse e letargia que me vestem o corpo agora não me cabem, eu pertenço à poesia, eu engulo meus sorrisos e demônios.
É preciso mudar, é hora de novamente
mais uma vez
reinventar-me.
A poesia que escrevo
e a que em tudo reside
é a mesma que me agride
e a mesma que me acalenta.
e a que em tudo reside
é a mesma que me agride
e a mesma que me acalenta.
terça-feira, 5 de julho de 2016
Solidão
Eu vejo a vida de forma abstrata e não sei distinguir minha realidade do que é verdadeiramente real, não sei até se sei definir o real, se o surreal é igualmente tangível para mim quanto este papel e lápis. Estas percepções advém de uma solidão que me tem afligido nos últimos dias, há muito a ser notado quando está só. Estou atormentada pelo som de meus sapatos contra o asfalto, aterrorizada pela falta de alguém que me acompanhe nesta rua, alguém que pudesse aliviar um pouco a angústia que é conversar consigo mesmo por tantos momentos, sem as opiniões que derivam somente de uma das minhas múltiplas personalidades que discutem entre si desde que tenho recordações para narrar. A solidão é um fardo a ser carregado, como se ela se tornasse mais uma personalidade personificada, proprietária de sua própria voz e razão e questionasse as peculiaridades da existência comigo e com meus outros eus. Minha solidão aponta para o céu, comenta sobre a arquitetura das casas e também sobre a vegetação. Minha solidão se orgulha da posição que ocupa em minha vida, com a insolência de admitir seu poder sobre mim e nossa amizade. Minha solidão não é má, não é vaidosa ou cruel, minha solidão depende do seu me possuir.
domingo, 3 de julho de 2016
eu te amo
em meus humildes lençóis
como contente suspiras
o suspiro de um sono profundo
amo a maneira que teu rosto
amacia minha roupa de cama
como o peso de teu corpo
registra um pequeno declive
em meu colchão.
eu desejei um amor doce
e tu fostes doce
fico abalada
pois tu me roubas palavras
e muitas vezes me percebo
impedida de todas as pronuncias
sem a força das vozes
incapaz de verbalizar o que sinto
você desafia a minha gravidade
e transfigura meu ser
anseio de ti um reconhecimento
maior do que a minha própria poesia
porque conheço intimamente
o impossível ato
de retratar meu amor
de forma fiel
qual ele é
quarta-feira, 22 de junho de 2016
21.06
Sinto minhas têmporas latejarem, não irei conseguir sair de casa. O dia de hoje me dói de maneiras intangíveis, pois não posso mais te ver deitado ao meu lado, com teus olhos marejados de tanto sono e lutando violentamente contra. Não quero parecer contraditória, fui eu que parti, mas pedaços de ti ficaram por todos os cantos de meu quarto, como se fosse a primeira camada da tua pele esquecida propositalmente para me causar saudade. Eu não consigo te esquecer com estas camisetas dentro de minhas gavetas e nossas histórias dentro de todos os meus cadernos. É algo ainda maior do que isso, é como se teus olhos me olhassem e tu estivesses tão perto de mim que eu não vejo mais nada além de ti. Sinto falta até de tuas bochechas e também de andar sozinha pelas ruas contigo me acompanhando, ouvindo tuas palavras e às vezes ouvindo apenas teu silêncio. Dói, pois a saudade de ti me seduz, me seduz tanto que eu negaria o paraíso por ela. Sinto falta das pequenas violências, que tão doces me deixavam marcas na alma durante dias. Por que essa saudade insiste em machucar meu coração? Eu escrevo todos os dias sobre a dor que é existir numa realidade onde você não está comigo. Eu detesto todos os móveis de meu quarto porque eles são fantasmas no escuro e à noite sussurram nosso passado em narrativas perfeitas porque eles foram testemunha, eu me reviro na cama e deliro, sinto até tua respiração ofegante tocar minha nuca, lembro dessa sensação e quero chorar. Eu te destino todas as minhas letras escritas, todo o amor que posso sentir e todas as páginas que tenho dentro de mim que são infinitas preces, azul e sofrimento. Não há nada que eu faça hoje que impeça estes pensamentos horríveis, as pessoas coexistem lá fora, mas aqui dentro eu permaneço sozinha, trancafiada em versos que escrevo sempre parecidos com estas linhas, ao som de músicas que reduzem minha tristeza a algo comum e universal a todos os seres. Esperando a hora em que olharei para frente e é você quem estará lá, não sua memória.
terça-feira, 14 de junho de 2016
Minha dor é tão real quanto este quarto. Minha dor pertence à realidade tanto quanto minha própria carne. Eu não existo sem ela, minha dor legitima minha existência. Dói, dói na garganta, toco a minha tranqueia e encosto onde minha dor começa, como se houvesse engolindo agulhas e elas parassem ali, horizontalmente, furando milímetros de cartilagem. Minha garganta rasgada é nascente de um choro que às vezes não sobe, dói quando não choro, me engasgo em minhas próprias lágrimas quase durante todo o dia por vergonha de demonstrar minha dor, mas a carrego comigo o tempo inteiro. Dói minha garganta. Dói meu peito, dói a dor do fundo dos oceano, comprimindo meus pulmões, arrebentando meus ventrículos e átrios peito a fora. Perco a respiração e me desespero, agonizante pela dor de um coração mutilado e o impedimento de respirar, não há espaço para o oxigênio dentro de mim, sinto a carne de meu peito unir-se a carne de minhas costas. Dói. Dói a boca de meu estômago, numa acidez que borbulha. Dói tudo dentro de mim.
quarta-feira, 6 de abril de 2016
Ao me invadir essa dor, todas as outras dores que vivenciei
em meus caminhos tornam-se um sonho distante, transparentes. Tornei-me escrava
dela, de forma que todas as manhãs, quando aspiro o ar então acordada, este é o
primeiro pensamento que me ocorre. Trago cicatrizes desta dor e eu não sei o
que é existir além disso.
quarta-feira, 19 de agosto de 2015
Há uma inquietação em meus lábios
pois não suporto o silêncio de nossas conversas
e as pequenas entonações dos intervalos de respostas
que tortuosos me levam a acreditar que secretamente me repudias
e ao meu lado somente caminha parte de ti
e as tuas outras frações vagam longe
sem pretensões de conhecer
o meu amor.
quinta-feira, 16 de julho de 2015
Retórica
Eu
sou fraca, mas o mundo não me abala. Sou fraca, mas não fraquejo. Sou fraca?
Sou verdadeiramente fraca ou sou apenas um animal acovardado que não reconhece
as próprias competências diante da face do medo? Se não me permito recuar
diante do que me fere, portanto devo apoderar-me das forças que me mantém em
pé. De todos os males, terríveis males, que me trouxeram à ocasião a qual me
encontro hoje, eu não reconheço nenhum que imaginaria previamente ser capaz de
suportar. Sempre estive com medo, certa
de que o próxima decepção eu não iria sobreviver intacta. Sobrevivi intacta?
Estou intacta hoje? Não estou cada vez mais fraca? Faço-me perguntas que não
julgo ter conhecimento suficiente para responder. Conheço-me? Conheço minhas
próprias fraquezas e forças? Eu não sei até que ponto meu corpo é elástico. Não
sei o ponto em que arrebentaria, eu não me arrisco a descobrir. Eu quero apenas
a paz que me roubam.
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